Nestes últimos dias debruçámo-nos com mais atenção sobre o drama da Ucrânia, cada vez mais encravada entre as ambições expansionistas das potências ocidentais e a Rússia, esta cada vez mais reduzida a uma posição defensiva, numa posição de hostilidade. Entretanto, em Portugal, se bem que o descontentamento e a agitação se vão evidenciando de um modo menos violento, pelo menos por enquanto, há igualmente muitas dúvidas sobre qual será o futuro, não só dos portugueses considerados como indivíduos, como até do próprio país.
O primeiro-ministro Passos Coelho terá manifestado preocupação quanto à baixa da taxa de natalidade, e nomeado uma comissão para se debruçar sobre o assunto (ver links abaixo). Se as comissões de estudo geralmente surtem poucos efeitos, esta com certeza que não vai ser excepção. Por um lado, toda a gente conhece as razões que têm estado na origem da baixa de natalidade: todas elas, ou pelo menos a grande maioria, prendem-se com a crise económico-financeira e com as políticas de austeridade. Por outro, as intenções manifestadas pelo governo Passos/Portas apontam para a manutenção destas últimas.
Portugal tem tido um nível de vida inferior aos dos seus parceiros europeus. Se houve alguma diminuição da diferença nos últimos anos, actualmente a tendência vai ser no sentido inverso. Os sucessivos governos têm-se manifestado incapazes (ou sem vontade) de enfrentar as causas estruturais do atraso português, como a excessiva concentração de riqueza, a falta de qualificação, não só das classes trabalhadoras, como (sobretudo) dos empresários, e a inadequação do sistema bancário e financeiro. A integração europeia foi um erro grave, e se os governos não parecem aceitar esse facto, as autoridades europeias menos ainda.
Em tempos falava-se na situação geográfica privilegiada de Portugal. Hoje em dia talvez menos. Ela, em certa medida, é o contrário da situação da Ucrânia, cercada por potências com ambições expansionistas. A posição geográfica de Portugal ajuda a explicar muitas opções históricas. Contudo, para fazer valer as vantagens que oferece e contrariar as desvantagens, será preciso um governo que esteja com o seu povo, o nosso povo, e firme com quem o quer explorar. É disso que precisamos. Sem esse governo, Portugal não terá futuro. O melhor incentivo para a subida da taxa de natalidade é fazer com que os portugueses possam acreditar que têm futuro na sua terra.


