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POESIA AO AMANHECER – 391 – por Manuel Simões

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WOLE SOYINKA

                                            ( 1934 )

CONVERSAÇÃO TELEFÓNICA

O preço parecia razoável, a localização

Indiferente. A proprietária jurou que vivia

Fora de casa. Não faltava

Senão a auto-confissão. “Senhora”, adverti,

“Detesto as viagens inúteis, sou africano”.

Silêncio. Transmissão silenciada

De urbanidade em apuros. A voz, quando chegou,

Coberta de lápis labial, larga boquilha

Banhada d’ouro derrotou-me. Estava vilmente apanhado.

“COMO? … Tinha ouvido bem…

“VOCÊ É CLARO

OU MUITO ESCURO?” Botão B. Botão A. Fedor

De alento rançoso de telefone público.

Cabina vermelha. Autocarro de dois andares

Vermelho que esmaga o alcatrão.

Estava certo! Envergonhado

Por meu descortês silêncio, a rendição

Levou-me, confundido, a pedir que simplificasse.

Acabou por considerar, variando a ênfase:

“VOCÊ É ESCURO OU MUITO CLARO? a revelação sobreveio.

“Quer dizer chocolate puro ou com leite?”

A sua anuência foi clínica, demolidora na sua leve

Impessoalidade. Rapidamente, sintonizada a onda,

Elegi “Sépia da África Ocidental”, e, como reflexão tardia,

“Consta no meu passaporte”. Silêncio para um espectroscópico

Voo da imaginação, até que a verdade fez ressoar seu acento

Com dureza ao telefone. “O QUE É ISSO?” confirmando

“NÃO SEI O QUE É ISSO”. “Trigueiro”.

“ESCURO ENTÃO, NÃO É ASSIM?” Não exactamente,

Sou de rosto trigueiro, senhora, mas deveria ver

O resto. A palma da minha mão e as plantas dos pés

São de um loiro oxigenado. A fricção – tontamente

Cansada, senhora, de tanto estar sentado – transformou

O meu traseiro em negro corvo. Um momento, senhora!”

Ao perceber o seu receptor a levantar-se sobre o ruído

Nos meus ouvidos, “Senhora”, supliquei, “não seria melhor

Que a senhora me visse?”

(de “Poesia Negra”, versão de MS)

Poeta, músico e autor teatral da Nigéria, de expressão inglesa. Um dos maiores dramaturgos africanos. A sua obra teve o primeiro reconhecimento em Inglaterra, onde estudou e escreveu os primeiros textos. Voltando à Nigéria, foi perseguido e exilou-se nos Estados-Unidos. Editou as revistas “Black Orpheus” e “Encounter”, Prémio Nobel para a Literatura em 1986. Publicou, entre outras obras, “Poems from prison” (1972).

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