Banhada d’ouro derrotou-me. Estava vilmente apanhado.
“COMO? … Tinha ouvido bem…
“VOCÊ É CLARO
OU MUITO ESCURO?” Botão B. Botão A. Fedor
De alento rançoso de telefone público.
Cabina vermelha. Autocarro de dois andares
Vermelho que esmaga o alcatrão.
Estava certo! Envergonhado
Por meu descortês silêncio, a rendição
Levou-me, confundido, a pedir que simplificasse.
Acabou por considerar, variando a ênfase:
“VOCÊ É ESCURO OU MUITO CLARO? a revelação sobreveio.
“Quer dizer chocolate puro ou com leite?”
A sua anuência foi clínica, demolidora na sua leve
Impessoalidade. Rapidamente, sintonizada a onda,
Elegi “Sépia da África Ocidental”, e, como reflexão tardia,
“Consta no meu passaporte”. Silêncio para um espectroscópico
Voo da imaginação, até que a verdade fez ressoar seu acento
Com dureza ao telefone. “O QUE É ISSO?” confirmando
“NÃO SEI O QUE É ISSO”. “Trigueiro”.
“ESCURO ENTÃO, NÃO É ASSIM?” Não exactamente,
Sou de rosto trigueiro, senhora, mas deveria ver
O resto. A palma da minha mão e as plantas dos pés
São de um loiro oxigenado. A fricção – tontamente
Cansada, senhora, de tanto estar sentado – transformou
O meu traseiro em negro corvo. Um momento, senhora!”
Ao perceber o seu receptor a levantar-se sobre o ruído
Nos meus ouvidos, “Senhora”, supliquei, “não seria melhor
Que a senhora me visse?”
(de “Poesia Negra”, versão de MS)
Poeta, músico e autor teatral da Nigéria, de expressão inglesa. Um dos maiores dramaturgos africanos. A sua obra teve o primeiro reconhecimento em Inglaterra, onde estudou e escreveu os primeiros textos. Voltando à Nigéria, foi perseguido e exilou-se nos Estados-Unidos. Editou as revistas “Black Orpheus” e “Encounter”, Prémio Nobel para a Literatura em 1986. Publicou, entre outras obras, “Poems from prison” (1972).