EDITORIAL – Um nado morto chamado “acordo ortográfico”.
carlosloures
O jornal Público apresenta na sua edição online de hoje um interessante artigo de Luís Miguel Queirós – “Acordo ortográfico não abriu o mercado brasileiro ao livro português”. Aconselhamos a leitura, pois é bastante esclarecedor quanto a uma verdadeira burla em que muito boa gente se envolveu. Quando esta questão começou a ser agitada, o principal argumento a favor do AO era o de que a unificação ortográfica iria possibilitar a venda de edições portuguesas no Brasil. Razão já de si espúria… Mas, para mais, era evidente que se tratava de uma falsa esperança.
Tratava-se também de uma manobra falaciosa porque nem é preciso ser linguista para compreender que a grande barreira à aceitação do livro português no Brasil não assenta nas diferenças ortográficas, mas sim nas diferenças lexicais e sintácticas entre as duas normas. Os graus de iliteracia são diferentes dos dois lados do Atlântico – apesar de todas as carências culturais existentes em Portugal, os leitores portugueses conseguem compreender com alguma facilidade o português do Brasil e, por outro lado, a difusão de telenovelas da TV Globo a partir dos anos 70, abriu caminho ao português do Brasil .
Não é por má vontade dos brasileiros – as diferenças do léxico, da sintaxe e da fonética, tornam o português europeu incompreensível, pelo menos, para as camadas de menor cultura. A «unidade ortográfica» nada resolve e parece quase impossível que linguistas portugueses tenham defendido o que é indefensável no plano científico e só pode ser explicado como jogada política. O resultado é deprimente – violentando o percurso etimológico dos vocábulos, aceitámos alterações ridículas ao nosso idioma. São tão disparatadas algumas dessas alterações e têm sido tão faladas, que nos dispensamos de as referir. Uma estupidez em nome de supostos lucros. Porém, desta vez, o crime não compensou. Ainda bem.