“A ESCOLA E OS CRAVOS”, NOVO LIVRO DA ARGONAUTA LUÍSA LOBÃO MONIZ – por Clara Castilho
clara castilho
Foi no dia 27, na Livraria Barata, que a nossa colaboradora Luísa Lobão Moniz apresentou o seu novo livro “A escola e os cravos”, com ilustrações de sua sobrinha de Rita Moniz e numa edição da Teodolito. Clara Castilho esteve lá.
Numa sala cheia. Cheia de crianças, cheia de amigos, cheia de colegas actuais (SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança), cheia de antigos professores e alunos de escolas onde trabalhou, cheia de familiares vindos de vários pontos do país.
À roda da Luísa e à roda do tema – a explicação da Revolução de Abril às crianças.
A apresentação esteve a cargo da escritora Maria Teresa Horta, que nos fez voltar aos livros da escola primária de antes da Revolução. O eco está na nossa memória, pensamos a ele ter escapado. Mas ao reler (ou voltar a ouvir) até nos arrepiamos…
[…] “Porque o Estado Novo transformara a escola num primordial e eficientíssimo veículo de transmissão da ideologia oficial, sustentáculo de um tempo de opressão e medo.
Escola evidentemente gravosa, sem imaginação nem criatividade, taciturna, discriminatória, elitista, onde toda e qualquer ideia de liberdade era castigada. Uma escola, que depois do 25 de Abril, julgávamos, abolida para sempre.
Ao ler “A Escola e os Cravos”, belo e original livro de Luísa Lobão Moniz, escrito com o matiz da alegria, a ponto-pé de sonho, o contraste pareceu-me de tal forma gritante, que decidi voltar lá atrás nos anos, até àquele ensino de que me lembro com extrema angústia, numa aprendizagem toda ela feita através de estereotipos e de preconceitos, de falsos moralismos e de discriminações encobertamente racistas e imensamente misóginas, onde as mulheres surgiam sempre num lugar subalterno, como ser social e intelectualmente inferior.
[…] O que acontecera à alegria das escolas públicas da primeira República? À alegria da aventura de aprender? Ao entusiasmo que sempre transmite o conhecimento? – Pouco a pouco foram apagados, pouco a pouco foram proibidos, pouco a pouco foram negados, foram destruidos. Porque, não pode haver conhecimento sem liberdade, não pode haver alegria sem liberdade, não pode existir ousadia nem ensino inovador e criativo, sem liberdade.
Ora é precisamente essa alegria nascida dos dias libertos, que o livro “A Escola e os Cravos” nos traz de volta, intacta. A retomar o ideário de Abril, através de um monólogo muitíssimo conseguido e colocado na boca de uma criança dos nossos dias. Num discurso de esperança e entusiasmo, jamais demagógico, embora sim, provavelmente idealista, embora sim, certamente um tanto utópico, a lembrar-nos as diferenças entre o ensino anterior e aquele trazido pela nova escola nascida do 25 de Abril. Inteligentemente enumerando, por exemplo: os castigos, as reguadas, os ponteiros, as humilhações, a supressão da criatividade, a divisão de sexos:
“O pior para mim foi quando aprendi que não havia escolas como a minha. Os meninos e as meninas estavam separados, havia escolas para rapazes e escolas para raparigas”.
Chegando mesmo a Luísa, a não iludir a violência repressiva:
“A Pide – disse a professora – não é como a polícia que às vezes vem à nossa escola, para dizer como nos devemos portar e explicar o que nos pode acontecer se fizerem queixa de nós na esquadra! A Pide levava as pessoas para a cadeia e até podia torturar!”
Torturava, sim.
E aqui, parece-me importante confessar, quanto “A Escola e os Cravos”, sem dúvida devido ao desencanto e ao retrocesso político e económico, que neste momento atravessamos em Portugal, me fez lembrar um livro de resistência…
Obrigada, Luísa, por nos vires dizer que a esperança continua a ser possível, mas também por nos trazeres a memória intacta, de um tempo de festa e de sonho, de cravos rubros,
quando a liberdade queria dizer intensamente isso: liberdade reencontrada.
Que nunca mais permitiremos que nos tirem.”
Maria Teresa Horta
No final, 40 cravos vermelhos foram distribuídos pelas crianças presentes.