CONTOS & CRÓNICAS – “O rio – o rio pode ser ele e outro rio“- por Sílvio Castro
carlosloures
O rio pode ser ele e outro rio. É ele quando percorre lento o leito do rio da minha cidade, deixando para trás as casas riberinhas que repetem a cada dia o ritual diante do rio – as mulheres que abrem as janelas e lançam às águas os restos da probreza que se desconhece; e os homens que enxotam para as águas patos e outras aves aquáticas momentaneamente indecisas entre o rio e a terra.
Este é o rio que deixa com indiferença os rituais e procura novos espaços fora da cidade, na direção dos campos. Ali o rio se alarga desejando tocar todo o verde dos canaviais, o verde dos gramados, dos capinzais, dos milharais, todo o verde que faz enverdecer até mesmo o ouro cristalino das águas do rio refletidas nas areias do leito alargado. No verde o rio se espraia, abrindo-se muitas vezes em braços paralelos, cortados por ilhas ilusórias, abrindo-se também em leques reduzidos que se fazem piscinas para onde acorrem com desabaladora alegria os corpos jovens que se desnudam na festa de verdura e fresco.
Depois dos banhos os corpos respigam lembranças do rio que já partiu, mas logo os mesmos corpos mergulham de novo no rio retomado.
O rio existe nos corpos dos banhantes, homens e mulheres, e quando eles passam, estes são corpos banhados das lembranças de um rio que não mais existe.
Se por um feliz e doloroso acaso dois desses corpos se unem banhados pelo mesmo rio, é o rio que desliza pelos longos cabelos dela, pelos seios umedecidos, pelas nádegas, coxas, pernas, de encontro ao mesmo rio que banha o corpo nervoso dele que a procura como uma foz.