A IDEIA – CARLOS EURICO DA COSTA – NUNCA LHE PRESTARAM ATENÇÃO – por Maria Estela Guedes
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Como é próprio do surrealismo, cuja prática aliou a pintura à poesia e a várias outras modalidades artísticas, Carlos Eurico da Costa (Viana do Castelo, 1928-Lisboa, 1998) deixou obra multifacetada, se bem que escassa no âmbito da criação pura, já que a sua actividade foi muito intensa como jornalista, crítico de cinema, organizador de antologias e publicitário. São apenas quatro os livros de poesia: Sete poemas da solenidade e um requiem, em 1952; Aventuras da razão, em 1965; A fulminada imagem, em 1968; e A Cidade de Palagüin, em 1979.
E tal como aconteceu ainda com a maior parte dos surrealistas portugueses da sua geração, ficou abafado pelas personalidades mais vibrantes, em especial Mário Cesariny de Vasconcelos, Artur do Cruzeiro Seixas, e um Luiz Pacheco cuja obra só tardiamente foi valorizada, dado o fascínio que na roda dos amigos, conhecidos e
companheiros, exercia a sua excentricidade. Foram três reis, somados à mais mítica figura de António Maria Lisboa, em torno dos quais giravam peões num xadrez artístico sem potencial para criar audiência larga numa população maioritariamente afastada da cultura contemporânea, e por isso trazer à realeza obras que têm circulado em relativo silêncio.
De outra parte, romper a barreira da censura também não foi tarefa simples, disso nos deixando testemunho Carlos Eurico da Costa, ao reconhecer na actividade surrealista o seu forte impacto político: Ter um estatuto de surrealista em 1949, com todo o seu ardor protestatário sobre os valores convencionais e os outros que nos
cercavam (o fascismo) era o ser-se coerente e lúcido: uma forma de luta. Limitada?
Elitista? Posteriormente ‘reformista’? É com a consciência (ou indiferença) de cada um – e o julgamento dos outros. (in: “Surrealismo em Portugal 1934-1952”, de Maria Jesus Avila e Perfecto E. Cuadrado).
Braços de ferro internos aos grupos, personalidades dominadoras, também contribuíram decerto para sufocar, ou para provocar o afastamento de génios insubmissos, caso de Herberto Helder, que a dado passo se afasta, zangado, recusando a colagem ao surrealismo. O mesmo aliás fez Carlos Eurico da Costa, em 1951, quando co-protagonizou a ruptura dentro do movimento surrealista português, ao subscrever a resposta a Alexandre O’Neill no panfleto colectivo Do capítulo da probidade. Pouco antes, em 1949, participara, com a série de desenhos “Grafoautografias”, na primeira Exposição dos Surrealistas portugueses, ao lado de Henrique Risques Pereira, Mário Cesariny de Vasconcelos, Pedro Oom, F. J.
Francisco, António Maria Lisboa, Mário Henrique Leiria, Fernando Alves dos Santos, Artur do Cruzeiro Seixas, Artur da Silva, A. P. Tomaz e Carlos Calvet.
Se bem que a obra plástica de Carlos Eurico da Costa tenha sido objecto de mostra, por parte da Fundação Cupertino de Miranda, pouca atenção tem recebido, motivo que pesou porventura mais que os anteriores no seu temperamento soturno e dependência do álcool, na fase final da vida.
Conheci-o nos anos 80, na direcção da Associação Portuguesa de Escritores, na Rua de S. Domingos à Lapa. Estava então casado com Maria Lúcia Lepecki, que me enviara A cidade de Palagüin, alegando que o Carlos Eurico merecia que a sua obra fosse criticada, o que é justo, e que pouca atenção em geral recebia, o que realmente é injusto. Recenseei-a no Diário Popular. Bom livro, visionário de uma cidade sombria, saído na carismática editora & etc., dirigida por Vítor Silva Tavares, o que já de si era a melhor das recomendações.
Guardo dele essa imagem soturna, antipática, e também conflituosa, sobretudo por ocasião da atribuição dos prémios da APE: contra todas as normas, logo que o júri chegava a um resultado, o Carlos Eurico da Costa comunicava aos jornalistas o nome dos premiados, antes da conferência de imprensa em que seriam oficialmente divulgados. O ambiente ficava azedo na direcção da APE, e quem mais se insurgia contra o procedimento irregular era o José Correia Tavares. Em todo o caso, a irregularidade surtia efeito nos jornais, como bem sabia Carlos Eurico da Costa, com a sua experiência de publicitário.