ALFREDO MARGARIDO: OS ÚLTIMOS INÉDITOS – I – por António Cândido Franco

Com um belo logótipo de Dorindo Carvalho, temos o grande prazer de dar hoje entrada na nossa Argos a António Cândido Franco, director da revista A IDEIA, poeta, ensaísta e romancista. Doutorado em Literatura Portuguesa  pela Universidade de Évora, tem a sua investigação incidido particularmente sobre a obra de Teixeira de Pascoaes, bem como sobre o percurso do Surrealismo em Portugal. É com um texto sobre Alfredo Margarido, saudoso amigo de muitos de nós, que inicia a sua colaboração. Num dos próximos dias apresentaremos este novo argonauta      à nossa comunidade. Bem-vindo a bordo, António Cândido Franco.

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Entre Junho e Agosto de 2010, dactilografou Alfredo Margarido quatro folhas A4, três delas dedicadas aoAlentejo, 1999 surrealismo e uma às artes plásticas. É um dos derradeiros testemunhos do escritor, se não o último, que faleceria pouco depois, a 12 de Outubro de 2010. O original dactilografado, em máquina de escrever, não sofreu emendas nem rasuras, com excepção da primeira linha da primeira folha – onde foi acrescentado, por duas vezes, à mão, a tinta, a palavra português. A primeira folha foi referenciada com a primeira letra maiúscula do alfabeto (A) e a segunda com a segunda (B) – não havendo nas restantes qualquer outra indicação. Na primeira folha, canto inferior esquerdo, com outra letra, a lápis, está indicada o seguinte: JUNHO-AGOSTO 2010. O conjunto é um primeiro borrão, à espera de ulterior revisão, que a morte do autor impediu para sempre. Agradecemos a Isabel de Castro Henriques, viúva do escritor, a possibilidade de consultarmos, tratarmos e apresentarmos as três folhas respeitantes ao surrealismo.

Alfredo Margarido (1928-2010) colaborou com Carlos Eurico da Costa em 1952 na organização duma antologia da jovem poesia portuguesa surrealista, Doze Jovens Poetas Portugueses, publicada no ano seguinte no Brasil (Ministério da Educação e da Saúde), promoveu e apoiou a segunda exposição surrealista de Cruzeiro Seixas (1957) em Luanda, deu colaboração à revista Pirâmide (1960) e colaborou na magna Antologia Surrealista do Cadáver-Esquisito (1961) de Mário Cesariny, com um cadáver-esquisito surrealista, “Homenagem a Franz Kafka”, de 1954, feito com Carlos Eurico da Costa. O autor de Pena Capital voltará a antologiá-lo em A Intervenção Surrealista (1966).

Entre as inúmeras vezes que Margarido regressou ao surrealismo, destacamos a pasta temática da revista Espacio/Espaço Escrito (n.º 6-7, 1991), dedicada a Mário Cesariny e ao surrealismo português, em larga medida da responsabilidade de Perfecto E. Cuadrado e de Ángel Campos Pámpano (1957-2008) – este, um dos três fundadores da publicação, o outro, um dos estudiosos do surrealismo em português. O conjunto ficou sendo até hoje sobre o assunto uma das mais significativas e completas peças críticas. Da pasta fazem parte poemas colagens inéditos de Cesariny, todos com a data de 1990, uma cronologia do poeta português (elaborada decerto por Perfecto) e um inquérito em três perguntas – uma sobre o papel de Cesariny e duas sobre o lugar do surrealismo – a que responderam mais de trinta cabeças (Al Berto, Alfredo Margarido, António Quadros, António Rodrigues, Antonio Tabucchi, Armando Silva Carvalho, August Willemsen, Bernardo Pinto de Almeida, Carlos Felipe Moisés, E.M. de Melo e Castro, Edouard Jaguer, Eugénio Lisboa, Eurico Gonçalves, Fernando J. B. Martinho, Fernando Pinto Amaral, Hermínio Monteiro, João Camilo dos Santos, Joaquim Matos, José-Augusto França, Laurens Vancrevel, Luís de Moura Sobral, Maria de Fátima Marinho, Maria Helena Vieira da Silva, Miguel Pérez Corrales, Natália Correia, Nuno Júdice, Olga Gonçalves, Sérgio Lima, Petr Král, Pierre Rivas, Xesús González Gómez).

Na resposta (pp. 111-113) – ao estabelecer as duas ditaduras que pressionavam a vida portuguesa na década de cinquenta do século passado, a política, salazarista, e a cultural, neo-realista – historiou Margarido as suas relações com o surrealismo português desde 1949, momento em que no quadro do apoio à candidatura oposicionista de Norton de Matos conheceu António Pedro. Dou-lhe a palavra: Conheci António Pedro durante as refregas políticas associadas às eleições para a Presidência da República: membro da comissão distrital de apoio ao candidato da oposição Norton de Matos, encontrei António Pedro directamente associado ao estado-maior do general. As relações perderam a sua dimensão política, mas adquiriram a perplexidade interrogativa no domínio estético, e pude utilizar a biblioteca do poeta. (p. 112) Logo veio o conhecimento, ou o convívio, em Viana do Castelo, com Carlos Eurico da Costa, nascido no mesmo ano de Margarido, de que resultou a antologia Doze Jovens Poetas Portugueses e o cadáver esquisito de 1954. Em 1952 conheceu por fim Mário Cesariny, em quem logo viu uma luz criadora, que lhe pareceu a mais larga daquele tempo e que não mais abandonou. Eis a síntese de Margarido: Para mim, como para muitos outros da minha geração, Mário Cesariny consubstanciava a própria criação: a maneira como se inscrevia na sociedade do seu e do nosso tempo, permitia compreender que o mundo devia ser modificado de maneira urgente. (p. 113)

(Conclusão amanhã)

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