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DIA UM, ANO PRIMEIRO, de CARLOS LOURES

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Dia Um, Ano Primeiro

 

 

Aqui posto de comando

do movimento das Forças Armadas

 

De súbito, a manhã ficou mais clara:

uma ave luminosa invadira o tempo,

rasgando com as asas a cortina brumosa,

a toalha de pus, a cirrose do medo.

 

De repente, tudo assumiu outro sentido

na poalha dourada da luz amanhecente

com os soldados, os tanques, os comunicados,

com as espingardas floridas e com a gente.

 

O silêncio derramou das suas feridas

um rio de fogo que destruiu as mordaças

e um grito colectivo de raiva e esperança

inundou as ruas, as praças e as avenidas.

 

Um hálito de futuro as percorreu;

uma inscrição floresceu vitoriosa

sobre a pedra musgosa de um velho muro

como um murro nos dentes da opressão.

 

A criminosa apatia que por tantos anos

nos enevoara o gesto e sufocara a voz

esfumava-se na rosa evanescente da alvorada

e surgia agora transformada em canção.

 

Um mundo de intermináveis corredores,

de cárceres, de tortura, exílio e morte

diluía-se no ácido subtil desta alegria,

que ocupara a cidade, o país e todos nós.

 

Pela noite, enquanto quase todos dormiam

eclodira a soleira, o limiar de um novo tempo:

o assassínio, a fome e a ignorância

pareciam já só uma recordação pungente.

 

Os milhões de cérebros violentados

por décadas de estupidez e crueldade

pareciam ser produto da nossa imaginação

ou ter existido apenas num pesadelo atroz.

 

Adormecêramos velhos, ciciantes e derrotados,

acordávamos jovens, iluminados e vitoriosos

e isso deixava-nos atónitos e boquiabertos,

cegados pela luz feroz da liberdade.

 

Falo do instante, do momento feito de horas

em que o tempo se suspendeu solene

enquanto se esvaía a noite da repressão

e a manhã clara nascia, incandescente.

 

Não falo do tempo em que, hesitantes,

procurávamos a bússola, o sextante, a vela

para navegar Abril, para sulcar o oceano

que o coração do povo abria generoso à Revolução.

 

Falo, sim, do momento em que o chacal

se escondeu, amedrontado, no fundo do covil,

espiando-nos a esperança, sonhando anoitecê-la

em setembros e marços de ódio e de vingança.

 

(Nas nossas mãos espreitavam já talvez

as garras de dilacerar revoluções e matar sonhos,

dentro de muitos de nós despontavam sementes

de outras novas e cinzentas servidões).

 

A luz atravessou o prisma de cristal da vida

e explodiu em mil cintilações de cor

perfurando o pulmão dos velhos medos

com um seta de amor, um estilhaço de sol…

 

Desse momento falo, do instante breve e puro

em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;

não, não é do passado que vos falo – juro,

pois foi no futuro que Abril aconteceu.

 

 

Carlos Loures in Poemabril-2ª edição, Fora de Texto, Coimbra, 1994

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