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DE TELMO A HERBERTO, OS PASSOS EM VOLTA [notas para uma propedêutica do agnosticismo marrano] – 1 – por Pedro Martins

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1. Marrano confesso, António Telmo, que em 1963 – há exactamente meio século – se  estreou em volume de letra redonda com uma fecunda Arte Poética, costumava lembrar-nos,  sublinhando o facto aterrador, a diligência com que a negra mão inquisitorial perscrutava nos assomos de inteligência e de inquietação os dois grandes indícios judaizantes. Herberto  Helder, por seu turno, no ano sobredito, como que transporta para Os Passos em Volta essa  díada dada à sonda do Santo Ofício. Sendo ele de consabida ascendência judaica, sentimo-nos tentados a afirmar que o poeta de Última Ciência fez daquele seu autobiográfico livro de   contos, tão extraordinário e poderosamente belo sob qualquer ponto de vista, o veículo  programático de uma inquietude criadora que logo surge com alarde no título dado à obra.

Compreende-se melhor o tumulto filosófico represado neste outro livro do desassossego  quando se lhe perquira o alvoroço metafísico e religioso pelo prisma presuntivo do  marranismo. Filho da tensão que sempre se gera entre um velho culto súbito interditado e o  novo que, abrupto, lhe é imposto, o marrano, como bem viu António Telmo, é um ser  dividido. A este propósito, o autor da História Secreta de Portugal incorre e reincide numa  sorte de taxinomia quase botânica quando pratica a distinção: entre os subprodutos da condição marrânica haverá então que discernir quantos, por não terem sido capazes de    suportar a tensão, se tornaram “ou materialistas ateus ou materialistas católicos, esquecendo  (no melhor dos casos) ou odiando (no pior) a religião de sangue”, sendo certo que outros se      tornaram “judeus secretos, praticando ao mesmo tempo as duas religiões, forçados a serem  ao mesmo tempo valentes e hipócritas”2. Sem deixar de reconhecer que “mais e diversos  resultados são possíveis”, Telmo considera por fim os “que procuram os caminhos difíceis,  não daquela dificuldade do marrano que pratica às ocultas a sua verdadeira religião, mas de  outra mais profunda dificuldade”3. Neste passo, o filósofo pensa somente às claras nos que   são ou procedem da Renascença Portuguesa; mas decerto não será sem siso integrar   entanto Herberto entre quantos arrostam com embaraço a poeira que o vento levanta às  veredas. Algures postado entre materialistas e renascentes, no campo inconsiderado do    surrealismo, Herberto Helder será bem a prova de que mais e diversos resultados são   possíveis. Que esteja talvez a meio caminho ou antes penda, sobremodo, para um dos  extremos já considerados é juízo que também cometo à formulação do leitor. Dar-lhe-ei, da minha parte, o firme aviso e umas quantas razões.

2. Falemos desse Deus que, n’Os Passos em Volta, Herberto Helder tanto nega como   afirma. Desse Deus que talvez não inspire os belgas da nação flamenga (“Polícia”, 36); e em  1 A edição de Os Passos em Volta, de Herberto Helder, aqui utilizada é a quinta, de  Fevereiro de 1985, com a chancela da Assírio & Alvim.    2 António Telmo, Carta prefacial a Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre     Teixeira Mendes, Porto, Ladina, 2007, p. 10.  3 Idem, ibidem.    quem o autor afirma pensar com uma falta de fé desesperada, quando ouve passar os
comboios que vão para Antuérpia. Esse Deus que a própria metáfora faz nascer de um  comboio, como “algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino  indefinido: Antuérpia – que possivelmente (evidentemente) não era” (“Os comboios que vão  para Antuérpia”, p. 51).

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