“A IDEIA” – DE TELMO A HERBERTO, OS PASSOS EM VOLTA [notas para uma propedêutica do agnosticismo marrano] – 5 – por Pedro Martins

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(Conclusão)

Seja porém o que importa assinalar a explicitação, ou explicação, que o autor faz daprópria metáfora, num texto tão fundamental da sua ideação como se viu ser “Os comboios que vão para Antuérpia”: aqui como tomada de consciência de uma razão poética que é asua. E, neste ponto, é de inteira justiça referir a marcação certeira, já antiga, de António Cândido Franco, quando, numa recensão a Filosofia e Kabbalah10, procura nocongraçar António Telmo e Herberto Helder. Fazendo de antemão notar que o livro de estreia de Telmo, no já recuado ano de 1963, se chamava justamente Arte Poética e apontava para o entendimento do pensamento a partir da poesia ou, o que vem a dar ao mesmo, da Kabbalah, Cândido Franco pôde, no final, escrever: O uso das fontes esotéricas tem a vantagem de aproximar o intérprete do texto e dos seus vários níveis de sentido. Além disso, apesar de usadas por um escol muito minoritário em relação ao conjunto da população,essas fontes parecem ser responsáveis por quase todos os momentos verdadeiramente marcantes da nossa poesia. A de Herberto Helder é ainda hoje um excelente exemplo da sua vitalidade actuante.

Lembremos as suas palavras: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”, palavras que se podiam perfeitamente aproximar de algumas outras de António Telmo. O gosto de trasladar o sentido, tão característico da poesia de Herberto Helder, pode ser vantajosamente aproximado do gosto de trasladar o pensamento que caracteriza a filosofia ou a hermenêutica de António Telmo. Nenhum poeta estará assim tão próximo de António Telmo pois nenhuma poesia formula com tanta evidência aquilo que a filosofia de Telmo postula: a metáfora como instrumento de pensamento. Há neste paralelismo, o mais actual no nosso país entre Filosofia e Poesia, a certeza de que estamos ante um autor que, apesar da obscuridade a que se tem remetido, ou por causa disso mesmo, é dos mais importantes intérpretes da poesia portuguesa e um daqueles que, com mais proveito e originalidade, se movem hoje no campo da hermenêutica literária.

Segundo estou agora em crer, algo mais pode entretanto ser dito. A explicação, ou explicitação, da metáfora a que há pouco, e a propósito de “Os comboios que vão para Antuérpia”, me referi radica na consciência prévia que o autor tem da sua própria arte poética, e que parece aliás enunciar nas linhas breves de uma definição surgida em ”Holanda”. Ainda e sempre, o poeta fala de si:

Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela lucidez, estiolar de excessiva inteligência no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a.

Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo subtil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato (p. 17-18).

Na expressão Apóstolo sem fé se encerra a recapitulação magnífica do agnosticismo marrano de Herberto: a atitude errante e incessante de uma demanda que, se não conduz nunca à certeza do conhecimento de Deus, enriquece todavia o caminheiro, humana e salvificamente.Segue-se o elogio dessaexcessiva inteligência que, como lucidez, se contrapõe à loucura. Sabemos bem o que pensar disto. Mas já não assim com a referência imediata auma tradição que se compreende e ama. Tradição, em hebraico, diz-se kabbalah – e a estaúltima, segundo propôs Cândido Franco, na recensão citada, poderíamos nós, na esteira deTelmo, chamar poesia.

Talvez o nome perdido pelo poeta, mais do que o seu próprio, seja – o que vem de resto, como problema identitário, a dar no mesmo – o da tradição a que pertence, e que continua a 10António Telmo, Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães Editores /1989”, in Colóquio/Letras , n.º 120, Abr. 1991, pp. 227-228.compreender e a amar (como se escreve no início do conto: pensando-a, sentado, na Holanda – uma Holanda que nos há-de parecer bastante significativa a este respeito): o credo mosaico relegado pelo medo para o limbo do subconsciente, para aqui actualizarmos a tese de António Telmo.

Talvez o que no estado marrano sobretudo perdure dessa tradição seja afinal a metáfora: termo subtil postado entre a beleza e a verdade, como organon de uma razão poética que de uma e de outra participa, no trânsito da alma para o espírito. Não por acaso, Álvaro Ribeiro via na metáfora um dos caracteres essenciais da atitude mental do judeu, e não se pode outrossim negar constituir ela, por excelência, precioso instrumento de dissimulação. Não por acaso,Arte Poética e Os Passos em Volta saem a lume nesse mesmo ano, já distante de meio século, de 1963. Não por acaso descendem os seus autores de gente de nação. Não por acaso os reúno aqui, a final: à semelhança do que fizera no começo, como quem agora fechasse o círculo.

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Atrás, da esquerda para a direita:Lima de Freitas,Mário-Henrique Leiria, Eunice Muñoz, Fernando Alvess dos Santos e Mário Cesariny; de Vasconcelos; à frente: Cruzeiro Seixas, António Barahona e Diogo Caldeira (1978).

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