Mas o que em “Duas pessoas” mais nos pode interessar é a visão do amor que esta narrativa objectivamente encerra, pela sua proximidade, porventura surpreendente, à doutrinação empreendida por Álvaro Ribeiro em A Razão Animada, mormente quando ofilósofo aqui afirma que “toda a arte de amar gira em torno da compaixão”; ou que “o amor se revela pela simultaneidade de dois sofrimentos, pela esperança comum de sublimar a dor pelo prazer”8. A necessidade de amor, a necessidade de amar e de ser amado é aliás uma proposição reiterada pelas vozes deOs Passos em Volta; mas este é um ponto que melimito a assinalar, não sem porém chamar a atenção para o facto de a concepção alvarina do amor ser amplamente influenciada pela kabbalah hebraica, como bem demonstrou António Telmo 5. Depois da inquietação, a inteligência. A racionalidade revela-se uma marca tão forte no itinerário de Os Passos em Volta que o seu elogio domina logo o monólogo célebre com que Herberto inaugura o livro. “Estilo” se intitula esse escrito, e fala-nos de algo que “felizmente” existe como “um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação” (p.9). Estamos aqui decerto perante aquela salvífica faculdade universalizante que ao narrador de “Trezentos e sessenta graus” permite a final – consequentemente – proclamar o “ganho obscuro” da “pureza adquirida na desordem” e a “fusão dos dias múltiplos numa única noite originária”, como actualização de um sentido que engloba a existência, ao cabo da jornada vivida.
O estilo traduz-se numa operação intelectual que continuamente submete o disperso, o vário e o fragmentário à sucessiva adunação de tópicos comuns cada vez mais abstractos. O estilo é a razão.
O estilo é assim uma coisa adulta, coisa de adultos e para adultos, e encerra um apelo incessante ao uso preclaro do intelecto activo. Por isso ele nos preserva da dementação. “As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta um estilo” (p. 12). Esta recusa da puerilidade, ou do infantilismo, maleita dessas crianças que “enlouquecem em coisas de poesia” (p. 11), pois que lhe sofram o “júbilo demoníaco” (p. 12), pode, aliás, encontrar a sua prova real numa afirmação colhida em “Doenças de pele”: Eu sabia que a inocência é cúmplice do mal (p. 84). Esta marca de racionalidade sumamente dignificante do ser humano surge bem evidenciada em “Aquele que dá a vida” – conto cujo protagonista nos é reiterada e enfaticamente apresentado como um homem que come, dorme e pensa. Talvez porque o exercício da razão pensante lhe permita inteligentemente adequar os meios aos fins – para aqui se empregar a noção de iteligência consagrada por Álvaro Ribeiro – quando se trata de salvar a própria vida – confira-se, pela leitura, a minúcia hábil e meticulosa com que estanca a hemorragia tremenda – ou de, no derradeiro instante, poupar a alheia.
6. Não se creia, todavia, que o poeta tornado prosador n’Os Passos em Volta se volveu aqui em escritor secamente prosaico. Não constitui sequer novidade quanto o magistral livro de contos de 1963 representa um exercício permanente da metáfora. Aliás, foi já possível apontar nestas laudas alguns exemplos em que essa trasladação do sentido se verifica. O ponto não justifica, pois, que com ele se tome demasiado tempo.