Como quer que seja, esta estação no fundo da escala pode muito bem ser vista, na economia da obra, como isso mesmo: uma estação, e apenas uma estação, do iter do movimento em que se consubstancia a tensão indecisa do marranismo. Pois que o que mais importe reter em “O quarto” seja a imagem da terra como o lugar a que o corpo regressa (“Na verdade tu és pó e em pó te hás-de transformar de novo”, diz Deus a Adão em Génesis, 3, 19), marca de uma circularidade religiosa e materialista; e bem assim o próprio quarto como o reduto irredutível da casa, de que, como muito bem mostrou Luís Paixão, 4 André Benzimra, Contribution maçonnique au dialogue entre les religions du Livre – le grand secret de réconciliation, Paris, Dervy, 2010, p. 60. propriamente constitui a quarta parte resultante da sua divisão interior, pois que a quinta seja já o remanescente externo dado ao agro5.
E se esta divisão em quatro se liga à tétrada – algo que, pela óptica da simbólica numerológica, não pode deixar de nos evocar a terra –, o peculiar quarto sem soalho dado pela narrativa traduz poderosamente o número pela imagem. E se o quarto, em várias narrativas de Os Passos em Volta, nos surge como um lugar frequentemente associado à vivência do medo e até do terror, bem que envolto, aqui e ali, na panaceia protectora de ser um último reduto, ou seja, como algo que já não pode mais ser reduzido, pois que com isso se perca a integridade essencial da própria casa (cfr. “Estilo”, “Polícia”, “Os comboios que vão para Antuérpia”, “Escadas e metafísica”), neste conto que o tem por título volve-se subitamente em instância salvífica: já não pode haver medo, afirma o protagonista quando o quarto sem soalho se lhe vai tornar a última, derradeira morada, ao cabo de um progressivo apertamento dos círculos que ao redor, na ilha, se lhe fecham (pp. 145-147).
Dobrar o cabo do medo há-de poder significar, segundo a adaptação prudente da lição de Álvaro Ribeiro, que do inferno se ascendeu (bem que descendo, em aparente paradoxo) à terra, segundo a escala gradativa dos motivos da acção humana6. Não é já o poeta recluído no seu quarto e “possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar” (“Os comboios que vão para Antuérpia”, p. 54) quem aqui se nos depara; antes o do escrito inaugural de Os Passos em Volta, aquele a quem o contínuo exercício do estilo adquirido lhe permitiu salvar-se da loucura – e aqui é ainda o confronto com a lição de Álvaro Ribeiro, que vê no estilo um órgão cultural – espiritual – de liberdade, que se pode revelar sumamente fecundo7.
Adentro da respectiva escala, a terra e o interesse que a ela conduz constituem um aspecto importante, porventura dominante, na formação do pensamento poético de Herberto – mas não exclusivo. Há momentos em que o poeta narrador, dominado pelo entusiasmo (isto é, com Deus dentro se si) ascende ao céu como quem o vislumbrasse ou entrevisse. Averbem-se, a este respeito, certas concessões feitas à inspiração divina (cfr. “Holanda”, “Polícia”, “O coelacanto”) ou genial (“Aquele que dá a vida”), em aflorament o de um ensinamento devido a Teixeira Rego, e tão caro a um Álvaro Ribeiro como ao seu discípulo António Telmo: o da literatura como expressão do sobrenatural. 4. Viria aqui a propósito desenvolver a importância de que a casa – tão presente, por via do quarto, em Os Passos em Volta – se reveste no judaísmo. Lembrarei somente, como quem evoca um aspecto fundador da Criação, ser um beth (palavra que significa casa em 5 Luís Paixão, “O quarto e a quinta”, in Cadernos de Filosofia Extravagante: Singularidades, Vila Viçosa, Serra d’Ossa, 2010, pp. 86 e ss. 6 Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Lisboa, IN-CM, 2009, p. 280. 7 Cfr., em A Razão Animada, o capítulo 8, “Estilização”. hebraico) a primeira letra da primeira palavra – Bereshit – do Génesis. A referência ao livro inicial do Pentateuco rasga-nos, todavia, novos horizontes, pois é nos seus primeiros versículos que nos deparamos com Elohim, o Deus criador, que, por isso mesmo, proclama a bondade da criação, sendo aquele aspecto da Divindade que o culto mosaico sobremodo privilegia. Daí que o judaísmo nos surja justamente como uma religião da terra, e também de quanto através desta se crie, produza, manifeste, exteriorize ou torne visível (recorde-se consistir o Pentecostes judaico numa Festa das Colheitas, ou das Primícias – da terra, bem entendido); como uma religião particularmente ordenada à santificação do corpo; e votada à proclamação do primado da vida. Tudo isto, a seu modo, mas notoriamente, ecoa nas texturas de Os Passos em Volta.
Neste livro espantoso, em que se admite ser “terrível a ferocidade criadora da terra” (“Escadas e metafísica”, p. 75); dessa terra “eterna” e ”cheia de seiva” (“Teorema”, pp. 123- 124) que, em cada instante, “ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova” (“Polícia”, p. 33); dessa terra cujo “vagar” existe, tal como o das estações, para ser amado (“Doenças de pele”, p. 81) – e a amabilidade da Natureza decorre obviamente da bondade e da beleza com que a divina sabedoria se manifesta na criação –, a vida humana será o maior dos bens, como – duplamente – nos mostra a fabulosa narrativa de “Aquele que dá a vida”. Seja pelo modo como o protagonista, crivado de facadas, e por isso moribundo, a consegue inteligentemente preservar; seja pela forma como, em derradeira instância, a irá poupar ao principal dos seus algozes, sofreando a vindicta. E é também neste conto, porventura o mais judaizante da genial colectânea de 1963, que o corpo humano se nos desenha como uma realidade eminentemente dignificável. O que é visível pela ênfase narrativa conferida ao afã agónico com que o herói procura restituir, quanto antes, o corpo mortalmente ferido à sua possível, provisória integridade: “O homem pensa: Não posso perder o sangue” (p. 103); “É preciso vedar as feridas, manter o sangue no seu lugar, no corpo” (p. 103). Esta aura de intangibilidade (própria do que está distante, por separado), que parece nimbar a criatura, depõe, de alguma sorte, sobre a sua sacralidade (importando aqui considerar a respectiva etimologia, recondutível a sacer).