“A IDEIA” – DE TELMO A HERBERTO, OS PASSOS EM VOLTA [notas para uma propedêutica do agnosticismo marrano] – 3 – por Pedro Martins

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Como quer que seja, esta estação no fundo da escala pode muito bem ser vista, na  economia da obra, como isso mesmo: uma estação, e apenas uma estação, do iter do  movimento em que se consubstancia a tensão indecisa do marranismo. Pois que o que mais importe reter em “O quarto” seja a imagem da terra como o lugar a que o corpo regressa  (“Na verdade tu és pó e em pó te hás-de transformar de novo”, diz Deus a Adão em Génesis,  3, 19), marca de uma circularidade religiosa e materialista; e bem assim o próprio quarto  como o reduto irredutível da casa, de que, como muito bem mostrou Luís Paixão,  4 André Benzimra, Contribution maçonnique au dialogue entre les religions du Livre – le  grand secret de réconciliation, Paris, Dervy, 2010, p. 60. propriamente constitui a quarta parte resultante da sua divisão interior, pois que a quinta seja  já o remanescente externo dado ao agro5.

E se esta divisão em quatro se liga à tétrada – algo que, pela óptica da simbólica   numerológica, não pode deixar de nos evocar a terra –, o peculiar quarto sem soalho dado  pela narrativa traduz poderosamente o número pela imagem. E se o quarto, em várias narrativas de Os Passos em Volta, nos surge como um lugar frequentemente associado à  vivência do medo e até do terror, bem que envolto, aqui e ali, na panaceia protectora de ser   um último reduto, ou seja, como algo que já não pode mais ser reduzido, pois que com isso   se perca a integridade essencial da própria casa (cfr. “Estilo”, “Polícia”, “Os comboios que  vão para Antuérpia”, “Escadas e metafísica”), neste conto que o tem por título volve-se  subitamente em instância salvífica: já não pode haver medo, afirma o protagonista quando o   quarto sem soalho se lhe vai tornar a última, derradeira morada, ao cabo de um progressivo  apertamento dos círculos que ao redor, na ilha, se lhe fecham (pp. 145-147).
Dobrar o cabo do medo há-de poder significar, segundo a adaptação prudente da lição  de Álvaro Ribeiro, que do inferno se ascendeu (bem que descendo, em aparente paradoxo) à  terra, segundo a escala gradativa dos motivos da acção humana6. Não é já o poeta recluído  no seu quarto e “possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem  lugar” (“Os comboios que vão para Antuérpia”, p. 54) quem aqui se nos depara; antes o do  escrito inaugural de Os Passos em Volta, aquele a quem o contínuo exercício do estilo  adquirido lhe permitiu salvar-se da loucura – e aqui é ainda o confronto com a lição de Álvaro  Ribeiro, que vê no estilo um órgão cultural – espiritual – de liberdade, que se pode revelar   sumamente fecundo7.

Adentro da respectiva escala, a terra e o interesse que a ela conduz constituem um  aspecto importante, porventura dominante, na formação do pensamento poético de Herberto  – mas não exclusivo. Há momentos em que o poeta narrador, dominado pelo entusiasmo  (isto é, com Deus dentro se si) ascende ao céu como quem o vislumbrasse ou entrevisse.  Averbem-se, a este respeito, certas concessões feitas à inspiração divina (cfr. “Holanda”,  “Polícia”, “O coelacanto”) ou genial (“Aquele que dá a vida”), em aflorament o de um   ensinamento devido a Teixeira Rego, e tão caro a um Álvaro Ribeiro como ao seu discípulo    António Telmo: o da literatura como expressão do sobrenatural. 4. Viria aqui a propósito desenvolver a importância de que a casa – tão presente, por via  do quarto, em Os Passos em Volta – se reveste no judaísmo. Lembrarei somente, como  quem evoca um aspecto fundador da Criação, ser um beth (palavra que significa casa em  5 Luís Paixão, “O quarto e a quinta”, in Cadernos de Filosofia Extravagante: Singularidades,  Vila Viçosa, Serra d’Ossa, 2010, pp. 86 e ss.  6 Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Lisboa, IN-CM, 2009, p. 280.  7 Cfr., em A Razão Animada, o capítulo 8, “Estilização”.  hebraico) a primeira letra da primeira palavra – Bereshit – do Génesis. A referência ao livro  inicial do Pentateuco rasga-nos, todavia, novos horizontes, pois é nos seus primeiros versículos que nos deparamos com Elohim, o Deus criador, que, por isso mesmo, proclama  a bondade da criação, sendo aquele aspecto da Divindade que o culto mosaico sobremodo   privilegia. Daí que o judaísmo nos surja justamente como uma religião da terra, e também de quanto através desta se crie, produza, manifeste, exteriorize ou torne visível (recorde-se consistir o Pentecostes judaico numa Festa das Colheitas, ou das Primícias – da terra, bem   entendido); como uma religião particularmente ordenada à santificação do corpo; e votada à proclamação do primado da vida. Tudo isto, a seu modo, mas notoriamente, ecoa nas  texturas de Os Passos em Volta.

Neste livro espantoso, em que se admite ser “terrível a ferocidade criadora da terra”  (“Escadas e metafísica”, p. 75); dessa terra “eterna” e ”cheia de seiva” (“Teorema”, pp. 123-  124) que, em cada instante, “ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a  renova” (“Polícia”, p. 33); dessa terra cujo “vagar” existe, tal como o das estações, para ser  amado (“Doenças de pele”, p. 81) – e a amabilidade da Natureza decorre obviamente da    bondade e da beleza com que a divina sabedoria se manifesta na criação –, a vida humana  será o maior dos bens, como – duplamente – nos mostra a fabulosa narrativa de “Aquele que  dá a vida”. Seja pelo modo como o protagonista, crivado de facadas, e por isso moribundo, a   consegue inteligentemente preservar; seja pela forma como, em derradeira instância, a irá poupar ao principal dos seus algozes, sofreando a vindicta. E é também neste conto,   porventura o mais judaizante da genial colectânea de 1963, que o corpo humano se nos  desenha como uma realidade eminentemente dignificável. O que é visível pela ênfase narrativa conferida ao afã agónico com que o herói procura restituir, quanto antes, o corpo  mortalmente ferido à sua possível, provisória integridade: “O homem pensa: Não posso  perder o sangue” (p. 103); “É preciso vedar as feridas, manter o sangue no seu lugar, no corpo” (p. 103). Esta aura de intangibilidade (própria do que está distante, por separado), que  parece nimbar a criatura, depõe, de alguma sorte, sobre a sua sacralidade (importando aqui considerar a respectiva etimologia, recondutível a sacer).

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