EUGÉNIOTAVARES – PEQUENA BIOGRAFIA DE UM GRANDE POETA – 4- por Carlos Loures
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O REGRESSO ÀS ORIGENS. ( «TRISTE REGRESSO»).
O Eugénio Tavares que chega à Brava em 1890, já não é o mesmo que dali saíra anos antes. Agora conhece, senão na totalidade, pelo menos uma boa parte do arquipélago e pode sonhar com a transformação da colónia num local de onde a injustiça social e a carência de alimento cultural, sejam erradicados. Ao conhecimento da sua ilha natal, acrescenta as estadas em São Vicente e Santiago. Consta que, já no século XX, terá visitado também a Boavista, mas não existem dados concretos quanto a esta eventual viagem. Sobretudo, importa-lhe destacar a existência de uma entidade cultural autóctone, perfeitamente diferenciada da matriz metropolitana. Dada a diversidade dos crioulos de cada ilha, a língua portuguesa é utilizada como eixo estruturante da cultura cabo-verdiana – afinal o Brasil, o grande Brasil, não necessitou de outro idioma para afirmar a sua pujante cultura. Na verdade, a sua opção pelo português, pelo menos nos trabalhos jornalísticos, na ficção, no teatro. não significa que o crioulo não lhe sirva também de veículo para chegar ao coração do povo. Eugénio Tavares é, pois, um escritor e um jornalista bilingue – a sua obra jornalística e a sua prosa, utilizam preferentemente o português. O crioulo, emprega-o ele nas letras que escreve para as mornas – assim, em 1895 (?) publica Manidjas – Canções, o primeiro livro escrito em crioulo.
Entre 1890 e 1900, frequenta a elite cultural que, formando-se no crisol intelectual da Brava, depressa irradia para as outras ilhas, inclusive para Santiago. Casa com D. Guiomar Leça, que será a sua companheira até ao fim da vida, uma esposa discreta, sem interferência na vida literária e política do marido. Adere à Maçonaria, mas não se conhece com precisão a data da sua adesão. Casimiro Monteiro, grão-mestre da Maçonaria cabo-verdiana, é seu compadre e grande amigo. Acompanhado por Loft de Vasconcelos, desenvolve na imprensa uma campanha que visa a alfabetização dos cabo-verdianos e a supressão de injustiças sociais que a administração colonial não logra esbater. O governador-geral, Alexandre de Serpa Pinto, que chega ao arquipélago em 1894, compreende razão de ser da sua luta e estimula-o a prosseguir.
Em Lisboa, este surto de desenvolvimento cultural, esta sede de progresso, cheira a sedição. Serpa Pinto deixa o arquipélago em 1897 e é substituído no cargo por João Cesário de Lacerda, que chega preparado para acabar com as veleidades republicanistas, com as reivindicações e literatices locais. Eugénio é chamado ao Palácio do Governo, na Praia, e explicitamente repreendido por Cesário de Lacerda, que o proíbe de fazer referências na imprensa, à fome que então assola Santiago. Quando, de forma brutal, o punho de ferro deste homem começa a sufocar a voz nascente e clara dos intelectuais em sintonia com os anseios populares, em 1900, na Revista de Cabo Verde, Eugénio Tavares enfrenta o Governador, dizendo-lhe: Senhor Governador de Cabo Verde (…) Eu exijo para o povo aquilo que de direito sei ser do povo; porque sobre o facto de lhe ser negado provar que lhe não seja devido pode muito bem o não dar hoje preparar o ter que dar amanhã. (…) Por isso exijo; não peço. Quereis saber quem sou eu para exigir? Sou uma vontade e, por conseguinte, uma força. Claro, palavras como estas não caíram em saco roto – Eugénio Tavares é falsamente acusado de ter cometido uma fraude no montante de 16 contos de réis nas suas funções administrativas. Processado, é suspenso e condenado. Começa o calvário que o conduzirá ao exílio.
Esta Revista de Cabo Verde, publicada na Metrópole por Luís Loft de Vasconcelos, é um dos espaços privilegiados por Eugénio para exprimir as suas ideias. No seu livro Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, diz a professora paulista Leila Leite Hernandez (que também alude ao papel da Revista editada por Loft de Vasconcelos): «…no início do século XX, tanto as ideias procedentes dos Estados Unidos, como as dos demais centros transmissores, convergem para o republicanismo que, aliás, impregna várias sociedades recém-independentes. É importante notar que nesses anos formam-se dois espaços de luta. Um, por parte dos que trabalham para assegurar o triunfo da República em Portugal,» (…) «Por sua vez, há o espaço de luta no próprio arquipélago, já anunciado pelos revoltosos de 1886, em Santo Antão, ao incorporarem a suas reivindicações a necessidade de substituir o governo monárquico pelo republicano. Assim, também em Cabo Verde, os princípios do republicanismo passam a ocupar o centro de todas as polémicas, informando a consciência histórica da elite crioula.»[1]
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[1] LEITE HERNANDEZ, Leila, Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, Selo Negro Editora, São Paulo, 2002)