HORA DI BAI, HORA DI DOR – O EXÍLIO NOS ESTADOS UNIDOS.
Numa noite de Junho de 1900, alguns pescadores da Baía da Furna vêem um navio de guerra hasteando a bandeira portuguesa, com os motores parados, silenciosamente, usando apenas a impulsão do velame, sulcar as águas da baía. Depois, duas lanchas transportam cerca de duas dezenas de soldados para terra. Cercam a casa de Eugénio e criam um dispositivo para o prender. Afortunadamente, o poeta estava numa festa de aniversário, em casa do compadre Nhó Lepeu, em Tomé Barrás. O destacamento de infantaria da Marinha dirige-se a essa casa e monta novo perímetro de cerco. Num lance tragicómico, Eugénio disfarça-se de velhinha e consegue fugir.
Em 12 de Junho de 1900, Eugénio embarca no navio B.A. Brayton com destino aos Estados Unidos. Diz Eugénio: «À tardinha, quando o cinzento perfil da ilha se diluiu no roxo do horizonte, desci à câmara, estendi-me no beliche e me pus a revolver na ferida da minha dor o punhal lacerador da saudade.» (…) «Que ia eu fazer à América? Como, ali, preencher o vácuo que eu tinha no coração? Viver, com que recursos? Sofrer, com que ânimo? Lutar, com que forças? Que ia eu fazer à América?». Ao cabo de 29 dias de viagem, o barco fundeou no porto de New Bedford. Começava uma década de exílio.
Uma década de martírio, mas durante a qual, em todo o caso, Eugénio desenvolveria grande actividade, sobretudo como jornalista. Em New Bedford, Massachusetts, Nova Inglaterra, onde reside com outros emigrantes cabo-verdianos, funda o jornal Alvorada e colabora em muitos outros, nomeadamente em periódicos portugueses e brasileiros. O Alvorada (que se publicará até 1917, portanto mesmo depois do regresso do poeta a Cabo Verde, em 1910), tem como objectivo principal ser «a voz dos emigrantes desprotegidos». Durante esse tempo de exílio, que só terminará com a proclamação da República em Portugal, o poeta visita por diversas vezes, de forma clandestina, a ilha Brava. Tem dois sobrinhos, filhos de Cidália uma irmã de Guiomar, sua cunhada, portanto. Crianças que ele adopta, seguindo o exemplo de seus pais adoptivos. Adora-os e eles retribuem esse amor. Os pequenos José e Luísa, constituem um dos principais motivos para as suas arriscadas e furtivas visitas à sua ilha.
O REGRESSO – A DEFESA DOS DIREITOS DO POVO DE CABO VERDE.
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Em 5 de Outubro de 1910 é proclamada a República em Portugal. Eugénio, cheio de entusiasmo, regressa a Cabo Verde. Membro do Partido Republicano e maçon, não tem a temer agora qualquer acto de repressão. Entretanto, durante o seu exílio, fora julgado à revelia e declarado inocente da infame acusação de que fora vítima. Para ele, tem início um novo ciclo. Inicia a sua colaboração no Manduco, jornal editado por Pedro Cardoso Monteiro e que se publica na ilha do Fogo. Pelas autoridades republicanas, é nomeado director da Imprensa Nacional da Colónia, com a incumbência de criar um novo jornal. Com Gustavo Carlos da Fonseca, director, Abílio de Macedo, administrador, e João Maria Pereira, editor, funda o semanário democrático A Voz de Cabo Verde, cujo primeiro número sai em 1 de Março de 1911. No editorial (Fiat lux), Eugénio saúda o novo governador-geral da Colónia, Marinha de Campos, para o qual «não há ricos nem pobres, não há brancos nem pretos; há justiça e só justiça».