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Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- VI – por António Gomes Marques

Imagem1Voltemos a Alves Redol. Essa ida para Angola, de onde acaba por regressar gravemente doente, foi fundamental na sua formação como cidadão consciente da necessidade de lutar contra o regime fascista que dominava Portugal, como ele próprio confessa em «Breve Memória», na 6.ª edição de Gaibéus: “Em 1928 parti para África. Aos 16 anos. Desembarquei com 50$00, uma garrafa de vinho do Porto e a experiência de uma viagem com emigrantes de 3.ª classe e condenados por crimes na militância.” E, mais à frente, acrescenta: “Até então [a estadia em África] nunca espreitara a vida por lentes tão poderosas e lúcidas, embora soubesse, na minha vivência com avós e tios, ferreiros, ferradores e camponeses, os amargos de boca da condição humilde. Convivera muito com gaibéus, carmelos, varinos e operários que vinham aviar-se à loja do meu pai, onde fui marçano. O balcão, porém, tornava-se fronteira que me impedia de compreendê-los. Faltava-me provar a vida assalariada.”

Em «Alinhavos para uma auto-biografia», publicado no n.º 258 da revista Vértice (Março de 1965) escreve: “Regressei aos dezanove anos, em terceira classe, como para lá fora, mas já não era o mesmo: parti com esperança e voltei com uma anemia. […] Hoje estou curado da anemia, mas não me curei da esperança.”

O interesse pela escrita revela-se muito cedo, aos 12 anos, mas a estadia em África é fundamental para a tomada de consciência que fará dele um escritor que se mistura com o povo, a quem nunca trairá. Ao que parece, terá sido um conjunto de livros que ali encontrou por mero acaso que o ajudaram a essa tomada de consciência.

O emprego que consegue em Lisboa, provavelmente em 1933, virá a contribuir para o aprofundamento dessa tomada de consciência, proporcionando-lhe a possibilidade de leituras fundamentais, assim como o convívio com intelectuais de grande prestígio pelo trabalho que desenvolvem, assim como pelo empenho que põem na luta anti-fascista e pelas possibilidades de conhecimento de outros autores. Na “Breve Memória” (1965) em Gaibéus, escreve Redol: “Poetas e economistas, romancistas e filósofos materialistas tornaram-se meus companheiros de viagem entre Lisboa e Vila Franca. Todos eles me mostravam a dificuldade de alcançar o equilíbrio entre o que gostaria de contar e a maneira de fazê-lo, embora soubesse que a prioridade caberia ao conhecimento do homem através dos seus problemas colectivos e individuais.”

Absolutamente determinante para o aparecimento do escritor foi a sua colaboração com o jornal O Diabo, iniciada com o conto «Kangondo», fruto da sua passagem por África. Ali conhece o Professor Manuel Rodrigues Lapa, que o incita a escrever sobre o Ribatejo, que percorre de modo a manter a sua rubrica “De Sol a Sol”, criando contos e crónicas com base no que observa na sua mistura com o povo, o que o leva ao estudo de «Etnografia Portuguesa», de José Leite de Vasconcelos, de «Cancioneiro Português», de Jaime Cortesão, e de «Cantares do Povo Português», de Rodney Gallop.

Numa visita ao Ribatejo na companhia de Rodrigues Lapa, contacta, na quinta que visitavam, com as gentes de Glória do Ribatejo, uma aldeia da Lezíria, verificando que os seus costumes são diferentes dos dos outros trabalhadores ali a ganhar o pão para o seu sustento e das suas famílias. “Rodrigues Lapa, escreve Alves Redol, no Preâmbulo de «Glória – Uma Aldeia do Ribatejo», seu primeiro livro, publicado em 1938, sempre deslumbrado por tudo que represente labor dos humildes, incitou-me. E naquelas férias de Julho, sobraçando papelada e muito de entusiasmo por poder servir, uma vez mais, o povo donde vim e que não traio, dispus-me a enfrentar as dificuldades da recolha. (pág. 37).

Com esta primeira obra, Alves Redol ganha um método de trabalho que jamais abandonará, sendo os seus romances precedidos de uma pormenorizada investigação que realiza misturado com o povo, nunca sendo de mais insistir nisto.

Vencida esta tarefa, logo parte para outra, dedicando-se ao estudo dos Gaibéus, título do seu segundo livro, que viria a ser considerado, na ficção, como a obra que inaugura o Movimento Neo-Realista, publicada em Dezembro de 1939. De referir que também esta obra tem a sua história, que Alves Redol conta na já referida «breve memória…», de 1965, de que extraímos a seguinte passagem: «Certa tarde, já Rodrigues Lapa abandonara a direcção de O Diabo e ao seu corpo de redactores pertenciam o Mário e o Jorge Domingues, o Álvaro e o Fernando, entre outros, encontrei na administração um crítico literário peruano ou cubano, se bem me lembro, Carlos de nome, professor primário no seu país.

(…) Conversámos várias vezes. Um dia confessou-me que se interessara por conhecer a minha colaboração no semanário e que queria falar-me sobre o assunto. Ouvira dizer que eu preparava um livro. Que livro?…

Resumi-lhe com entusiasmo o material que descobrira na Glória.

Na sua voz quente e repousada, achou que sim, que a etnografia era importante, mas que eu deveria começar a escrever um romance.»

Basta de citação. Foi este desafio que evitou, digo eu, que «Gaibéus» viesse a ser uma nova obra etnográfica, tornando-se no romance inaugurador de um novo movimento literário.

 

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