Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»-V – por António Gomes Marques

 

Imagem1Ora, tendo em conta a concepção do que é a arte divulgada por Jdanov, determinações a serem seguidas pelos Partidos Comunistas, e verificando a concepção apresentada pelos jovens neo-realistas, fácil é perceber que a polémica teria de estalar, sobretudo quando estes jovens não acatam tais determinações vindas da área comunista, apesar de muitos deles serem militantes do Partido Comunista Português, que ficou a ser conhecida como «polémica interna do neo-realismo».

Alves Redol, e já vai sendo tempo de falarmos mais dele e da sua Fotobiografia, nunca tomou posição nesta polémica, mas a sua obra, alguns textos que antecedem alguns dos seus livros, nomeadamente os prefácios que escreve mais tarde para «Gaibéus» e «Fanga», assim como a forma como acaba por reagir ao violento artigo de Mário Dionísio sobre a obra «Avieiros», escrevendo no exemplar da nova versão deste livro que oferece a Mário Dionísio: “Devo à tua sinceridade e à tua camaradagem (…) muito daquilo que hoje sou. Quero dizer-to hoje, de olhos nos olhos, com a lucidez de quem se rasga todos os dias para se situar neste mundo. Obrigado!” e, no exemplar da 6.ª edição de «Gaibéus», faz a seguinte dedicatória ao seu camarada Mário Dionísio: “Gostaria, por todos nós, que este romance (…) te recordasse o tempo vivido quando apareceu a público. Entre ele e o romance saído agora há muita dor e muito também de ti, que sempre exigiste o que nós merecíamos criar.”(16), esclarece qual o campo em que se situava nesta polémica.

Estas referências que acabamos de fazer mostram bem a grandeza de dois homens, Alves Redol e Mário Dionísio, assim como tornam claro que o rigor não é incompatível com a amizade quando tal grandeza existe.

III – Alves Redol

Mas continuemos com Alves Redol.

Se há um autor que não se debruçou sobre o povo mas que se misturou com ele esse autor é Alves Redol, como também é o autor que, entre os neo-realistas, melhor exemplifica a afirmação de Mário Dionísio que acima transcrevemos, pois Alves Redol foi bem um produto do meio mas esse meio foi também, numa boa parte, produto das suas mãos, como esta Fotobiografia mostra e ilustra com a sua iconografia.

As suas origens humildes nunca por ele foram negadas, mostrando nas suas obras o que acabamos de afirmar. O que testemunhou e viveu desse meio mostrou-o bem nos seus romances e contos e, também, no seu teatro. Aprendeu também na casa dos seus pais o que é a solidariedade, no exemplo dos seus pais, mesmo em condições económicas difíceis, nunca deixaram sem tecto e comida outros familiares em piores condições. Esta solidariedade foi sempre um valor presente em Alves Redol no apoio aos seus camaradas de escrita, ao ponto mesmo de apoiar do seu bolso, nunca bem abastecido, edições de obras dos seus companheiros.

As necessidades económicas que o seu pai atravessava no comércio que mantinha em Vila Franca de Xira, levam-no a ir para Angola, com 16 anos e meio, de onde consegue enviar dinheiro para ajudar seus pais, cerca de 50 contos, uma quantia que hoje poderíamos avaliar em 50.000 euros.

Aqui, não posso deixar de discordar do que na Fotobigrafia se afirma e, ao que julgo saber, o próprio Redol também o afirmou, de que «A vida comercial de António Redol da Cruz, no contexto de prenúncio da crise de 1929, …», quando a crise de 1929, conhecida como a «Grande Depressão» leva o historiador Fernando Rosas, no sétimo volume da História de Portugal, dirigida por José Mattoso, a esclarecer:

“A GRANDE DEPRESSÃO de 1929 pode dizer-se que teve um impacte económico, e até político, muito importante no Portugal dos começos da década de 30, a meio caminho entre o «centro europeu» e a periferia colonial africana.

Não tanto, ao contrário do que possa inferir-se apressadamente das experiências de outros países europeus mais desenvolvidos, pelos seus efeitos negativos, (…).”

E, mais à frente, continua Fernando Rosas:

“Se QUISÉSSEMOS RESUMIR O IMPACTE da Grande Depressão na economia portuguesa diríamos que ele foi relativamente tardio (1931 é o ano em que mais claramente se fazem sentir entre nós os efeitos da crise mundial), relativamente rápido (em 1932 a maioria dos indicadores já demonstram um início de recuperação), relativamente pouco intenso (os dados disponíveis mostram que para os diferentes domínios económicos e sociais o choque da crise esteve muito longe de atingir os níveis ou a duração da maioria dos outros países afectados) e diversificado sectorialmente (as consequências da depressão são sobretudo marcantes ao nível das actividades comerciais ligadas à exportação e importação e de certos sectores agrícolas). Não se andará longe da verdade ao referir a «relativa benignidade dos efeitos da crise na economia portuguesa» (N. Valério, 1982, pág. 544), no que coincidem o geral dos autores contemporâneos e até os que nessa época sobre o problema se debruçaram.» (pág. 136).

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