Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- I – por António Gomes Marques

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«… e, se não receio o erro, é só porque estou sempre

pronto a corrigi-lo.» – Bento de Jesus Caraça

I – Introdução

Solicitaram-me que vos fizesse a apresentação do livro que tem por título «Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos», numa edição da Althum.com, de um autor que nunca pretendeu sê-lo, o António Mota Redol, o mesmo não podendo dizer-se do fotobiografado.

 Estamos perante uma obra cheia de preciosa informação, não só para os investigadores de literatura, em particular os estudiosos do Movimento do Neo-Realismo, mas também para os historiadores. Nela se conta, pormenorizadamente, a vida de Alves Redol, pai do autor, com grande suporte em fotografias que retratam momentos da vida do escritor, fazendo também a ligação da pessoa à sua própria obra. É, portanto, também uma obra que vale pela iconografia, graças à excelente selecção de fotografias, arte a que Alves Redol se dedicou com amor e com a preocupação de fixar momentos importantes para si e para a cultura portuguesa.

 Aceitei a incumbência consciente da responsabilidade, maior ainda quando a personagem fotobiografada é Alves Redol, mas, é bom referir, que a assumi na qualidade de leitor e não de crítico literário, que não sou. Há uma outra razão, muito importante para mim, que levou à minha anuência e que se prende com o facto de eu me considerar devedor a esta geração que construiu o Movimento Neo-Realista, sobretudo a que respeita à área literária, cujos livros de que foram autores considero fundamentais na minha formação como cidadão.

 A minha responsabilidade aumenta quando esta Fotobiografia está ainda enriquecida com fragmentos autobiográficos do próprio Alves Redol seleccionados pelo Prof. Vítor Viçoso, um justamente reconhecido estudioso da sua obra e do Neo-Realismo, movimento de que Alves Redol foi um dos primeiros e fundamentais promotores. Ou seja, a tarefa que aceitei como leitor é de uma enorme responsabilidade dado que, ao falar de um livro como aquele que hoje vos é apresentado, não posso deixar de falar da obra do próprio Alves Redol e do Movimento Neo-Realista.

Metamos então mãos à obra. Por mim, se conseguir contribuir não só para lerem a Fotobiografia mas, sobretudo, para lerem ou relerem Alves Redol, dar-me-ei por muito feliz e com razões para vir a dizer que valeu a pena.

II – Movimento do Neo-Realismo

Comecemos pelo Neo-Realismo, numa apresentação breve deste Movimento, não só literário, embora tenha tido a sua maior expressão nesta área cultural. Talvez seja mais correcto dizer que o Neo-Realismo foi um Movimento político-cultural que teve a sua infância na segunda metade dos anos 30 do século passado, tornando-se pujante a partir dos anos 40-50 do mesmo século.

Recuemos um pouco no tempo, seguindo os ensinamentos de um dos mestres dos neo-realistas, Bento de Jesus Caraça, quando nos ensina que «só o recuo que forneça aos fenómenos uma perspectiva adequada pode permitir um estudo objectivo da sua natureza e significação». (1)

A primeira República foi derrubada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926, Fernando Lopes Graça, nascido em Tomar a 17 de Dezembro de 1906, seria o mais velho, Soeiro Pereira Gomes tinha 17 anos, Manuel da Fonseca e Alves Redol 14 anos, Joaquim Namorado nasceu em 1914, Mário Dionísio completaria 10 anos cerca de mês e meio depois, Fernando Namora saiu do ventre materno em 15 de Abril de 1919, Carlos de Oliveira faria 5 anos em 10 de Agosto desse ano, ou seja, podemos dizer que, quando se deu o golpe militar, os principais nomes do neo-realismo literário não passavam de adolescentes uns e crianças outros, com excepção dos dois primeiros.

Seguiu-se a ditadura militar.

A primeira República foi imaginada pelas classes trabalhadoras como solução para os seus problemas, criando-lhes muitas expectativas, o que não veio a verificar-se. No entanto, a adesão dos mais humildes à República nunca esteve em causa, nomeadamente nas tentativas goradas dos monárquicos para o regresso à monarquia.

O 28 de Maio, uma coligação de republicanos conservadores, monárquicos e nacionalistas, foi um pronunciamento militar, nacionalista e antiImagem1-parlamentar, que liquidou a Primeira República e implantou uma ditadura militar, que viria a dar origem, com a aprovação da Constituição de 1933, ao chamado Estado Novo, consolidando-se assim o poder do ditador Oliveira Salazar, que impôs aos portugueses um regime fascista, só derrubado com a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974. A ascensão do fascismo ao poder em Portugal acompanhava assim a imposição do fascismo em Itália por Mussolini ¾nomeado pelo rei para chefiar o governo após a marcha das milícias fascistas de 27 de Outubro de 1922 e, após eleições em 1924, com maioria absoluta no Parlamento¾ e o crescimento do partido nazi na Alemanha, vitorioso nas eleições de 1933, embora minoritário, que levaria Hitler à chefia do governo, com as desastrosas consequências para o Mundo mas de que, hoje, os senhores do dinheiro e autênticos patrões de alguns governos parecem esquecidos.

Na imagem – António Redol, autor da fotobiografia.

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