As festas no processo de dinamização e revivificação das relações fronteiriças – por Dulce Simões
carlosloures
Ao longo do processo histórico, as populações raianas do Baixo Alentejo partilharam realidades políticas, socioeconómicas e culturais com os vizinhos da Extremadura e Andaluzia. A agricultura foi complementada pelo contrabando, e a transgressão como forma de vida uniu os dois lados da fronteira numa cultura de resistência aos estados nacionais[1]. As redes de interdependência fortaleceram as relações de vizinhança, e foram reforçadas por laços de parentesco e solidariedades de classe. Na década de 1960, a transformação do mundo rural, e os consequentes fluxos migratórios, desvitalizaram as comunidades e enfraqueceram as relações sociais. A partir da década de 1980, com a integração no espaço político e económico europeu e o processo de “europeização”[2], assiste-se a um conjunto de perdas simbólicas e culturais na vida das populações. Todavia, o potencial das regiões transfronteiriças não é a integração na homogeneidade, mas a manutenção dum conjunto de diferenças, que exige a re-significação do local[3]. O local, “ao ser imaginado, recompôs saberes e poderes, com a atomização do conhecimento e a sua multiplicação”[4], mercantilizando o património natural, material e imaterial, ao serviço do turismo e do lazer. No contexto global, o local necessita de se reafirmar, reinventar e sobreviver, atrair forasteiros e criar numa imagem competitiva, mapeada de atributos identitários. As festas servem estes propósitos, legitimadas por produtos e particularidades culturais que evocam o lugar da fronteira. As novas festas transformam-se em celebrações públicas temáticas, de revitalização económica, pela acção de agentes locais que tentam reconstruir e criar novas redes com os vizinhos espanhóis, numa zona fronteiriça desertificada[5]. Como mediadores, movimentam-se num mapa imaginário que procura estabelecer as diferenças na cultura dos dois países, realçando o que podemos designar de “logística cultural”. Não se trata de uma “fronteira útil” dar lugar a uma “fronteira lúdica”, mas de entendermos as zonas fronteiriças como lugares de reencontro e criatividade, que em momentos festivos renovam profundas e duradouras continuidades culturais.
As festas patronais fortalecem os laços entre os membros das comunidades na Diáspora, reparam as ausências, actualizam as memórias e geram sentimentos de pertença. Apesar de concebidas em função do urbano, na abordagem religiosa e profana, têm componentes rituais que permitem ler o contexto local, que foi agrícola, e ainda não é outra coisa[6]. As festas religiosas/populares, outrora remetidas para o domínio da “tradição”, associadas a uma sociedade rural que se transformou, são também contemporâneas, ao serem partilhadas por trabalhadores emigrados, jovens escolarizados e uma elite letrada, remetendo para tempos cruzados. A Festa da Senhora das Pazes, em Vila Verde de Ficalho, pelas características da organização, pela ritualização e pela comensalidade coletiva, permite identificar continuidades históricas, e detetar variantes. A lenda da Senhora das Pazes cristaliza-se num mito fundador da Vila, associado à aparição de uma figura sobrenatural, que contribui simbolicamente para a irmandade das comunidades de Ficalho e Rosal de la Frontera. A crença popular permitiu a incorporação de valores transmitidos oralmente, de geração em geração, por meio da memória colectiva e de práticas rituais e performativas. Os rituais e símbolos festivos dão sentido e significado à vida das pessoas, perpetuando e reativando o relato histórico do qual são o reflexo[7]. A Festa é organizada por uma Comissão, de diferentes grupos de géneros e idades, que assegura a continuidade da tradição religiosa-popular. O processo ritual renova ciclicamente o lugar da fronteira e as relações de vizinhança, recebendo os Guiões das povoações de Aldeia Nova de S. Bento, Sobral da Adiça e do Rosal. A romaria e o arraial no campo, junto à Ermida da Senhora das Pazes, que outrora se realizavam na segunda-feira de Pascoela, exigiram uma recalendarização ajustada à realidade de comunidades migradas. As práticas musicais e a performativas, integradas no programa festivo, entrelaçam influências transnacionais, com o cante alentejano e grupos de bombos que reinventam modelos tradicionais minhotos. Durante o arraial, o flamenco entoa de improviso, em sevillanas resgatadas da romaria de Rocío, pelos vizinhos de Rosal de la Frontera. A música e a dança encontram nas festas o tempo e o espaço privilegiado para a “invenção e reinvenção da cultura através da interacção social”[8], como modelos de transmissão e construção identitária das comunidades raianas.
NOTAS
[1] Ver por exemplo Cairo Carou, Heriberto; Godinho, Paula e Xerardo Pereiro (coord.) (2009), Portugal e Espanha – Entre discursos de centro e práticas de fronteira, Lisboa, IELT/Edições Colibri.
[2] Borneman, John & Fowler, Nick (1997), “Europeanization”, Annual Review of Anthropology, vol. 26, p. 487.
[3]Löfgren, O. (2008), “Regionauts: The transformation of cross-border regions in Scandinavia”, European Urban and Regional Studies, 15 (3), p. 207.
[4] Godinho, Paula (coord.) (2012), Usos da Memória e Práticas do Património, Edições Colibri, p. 233.
[5] Na fronteira sul destaca-se a “ExpoBarrancos – a grande feira da raia” (Barrancos), a “FATOR – Feira de Artes e Ofícios da Raia” (Vila Verde de Ficalho), a “Feira Transfronteiriça de Vale do Poço” (Santana de Cambas) e a “Feria Gastronómica Transfronteriza del Gurumelo” (Paymogo- Huelva).
[6] Baptista, Fernando Oliveira (1996), “Declínio de um tempo longo”, em Joaquim Pais de Brito et al. (org.) O Voo do Arado, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia, Instituto Português de Museus/Ministério da Cultura.