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ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O ‘CAPITAL NO SÉCULO XXI’ DE THOMAS PIKETTY, por THOMAS PALLEY

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Algumas reflexões sobre o ‘Capital no Século XXI’ de Thomas Piketty

Thomas Palley

Social Europe Journal, 14 de Abril de 2014

Parte I

O livro “Capital in the Twenty-First Century”, de Thomas Piketty, é um livro de 685 paginas que caracteriza em definitivo a estrutura empírica da desigualdade do rendimento e da riqueza nas economias capitalistas, ao longo dos últimos duzentos e cinquenta anos e, em especial, nos últimos cem anos. O livro analisa igualmente o bizarro agudizar das desigualdades ao longo dos últimos quarenta anos e termina com um apelo a que se reponham elevadas taxas marginais de tributação sobre os rendimentos e que se crie um imposto sobre a riqueza global.

O livro tocou um nervo sensível e tornou-se um fenómeno. Ao estruturar um sólido ataque contra as desigualdades, Piketty tornou-se também um polemista acidental. E isso porque o livro tem potencial para desencadear involuntariamente o debate sobre o designado capitalismo de “mercado livre”. A grande questão é se tal se verificará?

Para se ter uma perspectiva sobre a natureza do fenómeno, considere-se o seguinte. O livro (no momento em que estou a escrever este artigo) é já o número um na lista das melhores vendas da Amazon.com, ultrapassando livros como o de Lynn Vincent “Heaven is for Real: A Little Boy’s Astounding Story of His Trip to Heaven and Back”; o de George Martin “A Game of Thrones”-caixa com 5 livros; o de Erlend Blake “Never Work Again: Work less, Earn More and Live Your Freedom”; e o de Dale Carnegie “How to Win Friends & Influence People”.

A habitualmente sóbria edição dominical do New York Times publicou um longo artigo acompanhado de uma barra de destaque colocando o livro de Piketty ao lado de “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith (1776); do “Ensaio sobre o Princípio da População”, de Thomas Malthus (1798), do “Princípios de Economia Política”, de Stuart Mill (1848); de “O Capital”, de Karl Marx (1867) e da “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de John Maynard Keynes (1936). Creio que falar em fenómeno não é um exagero.

O livro do Piketty está estruturado em quatro seções. A primeira estabelece o enquadramento teórico, as duas seguintes contêm análise empírica e a quarta define o quadro de políticas para inverter o agudizar das desigualdades dos últimos quarenta anos. Segundo todos os testemunhos de quem sabe, a análise empírica é soberba na abrangência e no detalhe, sendo elogiada como fazendo parte de uma nova escola económica que explora “grandes” conjuntos de dados. No caso de Piketty, o grande volume de dados são os impostos sobre os rendimentos individuais.

A oportunidade da publicação do livro é quase perfeita, por se encontrar desperto o interesse político pelas questões da desigualdade, mas os seus resultados empíricos não são revolucionários, sendo que a crescente desigualdade do rendimento e da riqueza tem sido documentada há muitos anos, embora de forma menos exaustiva. Desde 1988, com a primeira edição do “The State of Working America”, Larry Mishel e outros co-autores do Economic Policy Institute, em Washington DC, têm caracterizado, de dois em dois anos, o problema da estagnação dos salários e da crescente desigualdade de rendimentos nos Estados Unidos – e também eles utilizam grande volume de dados da Current Population Survey. Jamie Galbraith atestou amplamente essa realidade no seu livro de 1998 “Created Unequal: The Crisis in America Pay”. Para além disso, também ele utilizou uma enorme massa de dados sobre a distribuição dos salários na indústria transformadora e, posteriormente, alargou a sua investigação para abranger a economia internacional.

Outro economista que documentou a crescente desigualdade do rendimento e da riqueza nos EUA foi Edward Wolff, no seu livro em co-autoria, de 2002, “Top Heavy: The Increasing Inequality of Wealth in America and What Can Be Done About It, e no seu livro de 2008 “Poverty and Income Distribution”. No que diz respeito à análise a nível internacional, foi Branko Milanovic quem deu o mais importante contributo com o seu artigo de 2002 “True World Income Distribution, 1988 e 1993: First Calculations Based on Household Surveys Alone ” e com o seu livro de 2005 “Worlds Apart: Measuring International and Global Inequality”. Outros reputados contributos incluem Anthony Atkinson e François Bourguignon. E, é claro, Piketty contribuiu também com o seu magistral artigo de 2003, escrito em co-autoria com Emmanuel Saez, sobre a desigualdade do rendimento nos Estados Unidos de 1913 a 1998. Na verdade, este seu livro é, em parte, uma extensão da metodologia desenvolvida nesse artigo.

(continua)

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http://www.social-europe.eu/2014/04/thomas-piketty-capital/

 

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