ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O ‘CAPITAL NO SÉCULO XXI’ DE THOMAS PIKETTY, por THOMAS PALLEY

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Falareconomia1

Algumas reflexões sobre o ‘Capital no Século XXI’ de Thomas Piketty

Thomas Palley

Social Europe Journal, 14 de Abril de 2014

Parte II

 

(conclusão)

A política no “Capital” de Thomas Piketty

 TINAThomas Piketty levanta questões sobre a forma como o capitalismo funciona (foto: CC Charles Hope on Flickr)

Assim sendo, é interessante perguntar porque razão Piketty conseguiu avançar onde outros falharam. Na minha opinião, uma das razões é política. Mishel, Galbraith e Wolff são economistas progressistas de esquerda. Embora os seus livros não sejam análises teóricas ou exaustivas no domínio político, a lógica teórica que lhe está implícita realça a importância do poder económico e político. Essa lógica é explicitamente desenvolvida no meu livro de 1998, “Plenty of Nothing: The Downsizing of the American Dream and the Case for Structural Keynesianism”.

O aspecto aqui importante é o facto de o pensamento económico corrente dominante ter dificuldade em reconhecer o trabalho vindo de tais fontes, porque reconhecê-lo seria legitimá-lo. Isso gera uma situação estranha no pensamento económico, em que uma dada realidade não é digna de consideração nem reconhecida até que a pessoa correcta o diga. Este paradigma aplica-se à desigualdade do rendimento, à macroeconomia da deflação ligada à dívida pública, à economia do controlo dos movimentos internacionais de capitais e à teoria da inflação ligada à curva de Phillips, para citar apenas alguns exemplos.

Estas observações conduzem a uma segunda questão, que consiste em que o livro de Piketty, depois de passado o alarido inicial, poder acabar como “economia à Leopardo” (“gattopardo economics” no original), ou seja, é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. O discurso no domínio público sobre as desigualdades do rendimento e da riqueza foi sendo crescentemente apropriado pelos economistas progressistas, quer por terem identificado primeiramente o problema, quer pela coerência lógica e pela consistência empírica da sua explanação. Isso colocou o pensamento económico dominante na defensiva política. Piketty dá uma explicação no quadro da teoria neoclássica para o agudizar das desigualdades, na primeira parte do seu livro. Por essa via, cria uma “oportunidade à Leopardo”, ou seja, em que a questão da desigualdade é novamente encaixada na teoria económica dominante, a qual permanece inalterada.

Utilizando o modelo convencional de produtividade marginal, Piketty apresenta uma explicação para o agudizar das desigualdades com base no aumento da diferença entre o produto marginal do capital, que determina a taxa de lucro (r), e a taxa de crescimento (g). Estando a propriedade do capital tão concentrada, uma taxa de lucro mais elevada ou uma taxa de crescimento económico mais lenta fazem aumentar as desigualdades, uma vez que os rendimentos dos ricos crescem mais rapidamente que a economia global.

O carácter convencional do pensamento teórico de Piketty engendra na sua cabeça as suas prescrições políticas. O seu modelo neoclássico de análise do crescimento económico leva-o a concentrar-se na tributação como remédio. Dá pouca atenção às questões das instituições económicas e das estruturas de poder económico, porque estas questões não fazem parte do modelo neoclássico. Isso explica, em substância, a tímida adesão dos economistas progressistas ao livro. Além disso, mesmo se tecnicamente viáveis, as prescrições de impostos de Piketty são politicamente ingénuas, dado que o capital controla de forma crescente o próprio processo político.

Estes aspectos levaram alguns críticos a desencantar os velhos argumentos de “Cambridge” sobre a incoerência intelectual da teoria da produtividade marginal ligada à repartição do rendimento. Os críticos também alegam que Piketty mistura os conceitos de capital físico e financeiro, desprezando o papel da finança na determinação da taxa de rentabilidade e na estrutura de repartição do rendimento e da riqueza. Há dois problemas nestas respostas. Primeiro, os economistas da corrente de pensamento dominante decidiram há já muito tempo nem sequer olharem ou darem ouvidos a tais argumentos. Em segundo lugar, tais argumentos erram o alvo, que é o da natureza do capitalismo.

Uma melhor resposta consiste em as críticas manterem o argumento da taxa de lucro versus taxa de crescimento, descartando simultaneamente o argumento da produtividade marginal neoclássica da teoria de Piketty. Os economistas da corrente de pensamento dominante irão insistir na história convencional de que a taxa de lucro é determinada tecnologicamente. No entanto, tal como Piketty sublinha a espaços, na realidade a taxa de lucro é politica e socialmente determinada por factores que influenciam a distribuição do poder político e económico. O crescimento é também influenciado por opções políticas e institucionais. É neste ponto que é de carregar no argumento de o que é que os críticos da corrente de pensamento económico dominante têm feito (sem qualquer resultado) há décadas. A grande contribuição do livro do Piketty é que cria uma nova oportunidade nesta direcção.

Os economistas académicos da corrente de pensamento económico dominante tentarão contrariá-lo e insistirão na “táctica à Leopardo”. A minha previsão é de que a álgebra do “r menos g” fará o seu caminho curricular, com a taxa do lucro a ser explicada como sendo o produto marginal do capital; Os economistas da escola de Chicago irão contrapor que a economia tem mecanismos que limitam uma grande e prolongada diferença entre r e g; e os estudantes de  Harvard e do MIT terão oportunidade de fazer pesquisa sobre as falhas de mercado defendendo o oposto. O resultado líquido disto é que a teoria económica se manterá basicamente inalterada e ainda mais difícil de mudar.

O sucesso fenomenal de Piketty levanta dilemas extremamente violentos para os economistas progressivas. O seu livro levantou a questão da dimensão política da desigualdade; o autor parece admiravelmente modesto; exprime insistentemente sólidos pontos de vista liberais sobre o efeito tóxico de uma época dourada das desigualdades em democracia; e recomenda a tributação da riqueza. Todas as críticas podem parecer apenas como borrifos de chuva sobre a sua marcha triunfal. Há idênticos dilemas a tocar economistas como Paul Krugman, que é brilhantemente honesto na sua crítica aos Republicanos, menos honesto na sua crítica aos Democratas e não confiável na sua crítica à corrente de pensamento económico dominante. Ao criticar arrisca-se a minar estas fontes de apoio aliadas.

Apesar de tudo, estas coisas devem ser ditas. Valores partilhados e análises partilhadas são coisas diferentes. Valores partilhados podem gerar consensos a curto prazo que obscureçam conflitos a longo prazo inerentes às diferenças de raciocínios. As ideias importam, e não assegurar a articulação ideias de forma honesta pode ter graves consequências. Os economistas académicos têm a obrigação de enunciar claramente as questões teóricas. O livro de Piketty é um tratado académico com implicações nas políticas públicas, o que significa que é correcto assinalar as suas tendências neoclássicas e os perigos da “economia à Leopardo”.

O livro teve já um enorme impacto político positivo. Na minha opinião, falar honestamente sobre as suas limitações não diminuirá este impacto. Os economistas neoclássicos falaram sempre do capital (K). O assunto proibido é o capitalismo. Piketty aguçou o apetite do público ao falar sobre o capital. A crítica amigável pode fazer com que o público pense sobre o capitalismo e sobre o que é necessário fazer para que o capitalismo aceite uma prosperidade partilhada.

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http://www.social-europe.eu/2014/04/thomas-piketty-capital/

 

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Para ler a Parte I deste trabalho de Thomas Palley sobre O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O ‘CAPITAL NO SÉCULO XXI’ DE THOMAS PIKETTY, por THOMAS PALLEY

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