SOBRE O TEXTO DE RICARDO A MARX, DE MARX A RICARDO, SOBRE O LIVRO DE PIKETTY, SOBRE A DINÂMICA DAS DESIGUALDADES: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1

Sobre o texto de Ricardo a Marxde Marx a Ricardo, sobre o livro de Piketty, sobre a dinâmica das desigualdades: algumas reflexões

21 de Maio de 2014

Parte XI

(CONCLUSÃO)

Como se vê, o conceito de capital aqui utilizado não tem nada a ver com o sentido de capital dado por Marx ao estudar a baixa tendencial da taxa de lucro. Pior ainda, o livro de Piketty pretende estudar as dinâmicas do capitalismo do século XXI e coloca no mesmo nível, tanto os lucros, os rendimentos apropriados pelos capitalistas no sentido de Marx, como também todas as formas como juros, dividendos, mais-valias, etc. e — dizemos nós — muitas transferências implícitas para o sector financeiro de rendimentos gerados na produção, e faz a operação equivalente com o capital, colocando como capital tanto o capital da economia real, com o qual se gera o excedente global a repartir, como o capital da economia financeira, com o qual se apropriam os lucros gerados na economia real. Por esta via, elimina-se na sua análise um dos principais centros de contradições do capitalismo moderno, a luta entre o capital produtivo e o capital financeiro pela apropriação do excedente, e desta luta as marcas são actualmente já bem evidentes[1]. Hoje ninguém pode ignorar o domínio da City ou de Wall Street sobre a economia real, mas este antagonismo de classe entre o capital financeiro e o capital produtivo é assim eliminado na análise de Piketty. E a taxa de rentabilidade do capital pouco ou nada tem a ver com a taxa de lucro de Marx. O conceito de capital muito menos. E quer-se assim substituir Marx com Piketty! Nesta matéria e retomando a nossa última aula vale bem mais ouvir um financeiro como Grantham:

Karl Marx focou insistentemente a questão da tendência do capitalismo em se fixar no crescimento económico, de tal forma que levaria o capitalismo a esquecer-se de transmitir uma imagem amigável à sociedade e a forçar clara e brutalmente o seu domínio sobre o trabalho. Ironicamente, de certa maneira, Marx e Engels acalentavam esperanças na globalização e nas empresas multinacionais porque, segundo defendiam, tornariam o capitalismo ainda mais poderoso, a passar dos limites, e, eventualmente, imprudente. Seria, segundo proclamavam, uma maneira de dar aos capitalistas um pouco mais de corda para se enforcarem, ou melhor, para se enforcarem a si próprios na revolução dos trabalhadores. A corda para essa missão, sugeriam eles com algum humor negro, seria comprada a capitalistas de alta estirpe competitiva, sempre gulosos por um bom negócio. Bem, o tempo vai passando e vai ser difícil ter uma revolução de trabalhadores sem trabalhadores. Não será fácil organizar máquinas-ferramentas robotizadas. No entanto, Marx e Engels têm certamente razão sobre o aspecto de a globalização e as empresas multinacionais reforçarem o poder do capital a expensas do trabalho. Para contrariar a visão apocalíptica de Marx, é preciso um papel moderador dos poderes públicos esclarecidos (mesmo que fossem apenas um pouco esclarecidos seria já encorajador) para moderar esta nova e terrível força destruidora que representa o descontrolo da actual globalização (globalized Juggernaut) e isto antes que o capitalismo se torne tão autista que venhamos a ter uma reacção social bem grave.

Discutir sim o livro de Piketty sobre a redistribuição mas sobretudo discutir antes os problemas da distribuição, os que se levantam na produção ou mesmo antes dela, os que se levantam na regulação dos diversos mercados, os que se levantam igualmente na regulação das trocas internacionais a que aludíamos antes com a pequena citação de Concialdi. Relembremos pois o que nos diz Craigs na citação utilizada: “Quando se criou uma economia global e se tem ainda Estados-nação, não há nenhuma maneira de corrigir a redistribuição do rendimento e da riqueza”, relembremos o que nos diz Thomas Palley:

É neste ponto que é de carregar no argumento de o que é que os críticos da corrente de pensamento económico dominante têm feito (sem qualquer resultado) há décadas. A grande contribuição do livro do Piketty é que cria uma nova oportunidade nesta direcção.

Se o não fizermos e com força, aproveitando a oportunidade que o livro de Piketty levanta, sem que ele próprio o queira, é então seguro que tudo se manterá na mesma; as Universidades continuarão a vender o mesmo discurso de até agora, os políticos continuarão a dizer que com estas políticas continuaremos a caminho de um mundo harmonioso e os media continuarão a “criar-nos provas” de que esta é a verdade. Se assim for Palley terá razão quando nos diz:

Os economistas académicos da corrente de pensamento económico dominante tentarão contrariá-lo e insistirão na “táctica à Leopardo”. A minha previsão é de que a álgebra do “r menos g” fará o seu caminho curricular, com a taxa do lucro a ser explicada como sendo o produto marginal do capital; os economistas da escola de Chicago irão contrapor que a economia tem mecanismos que limitam uma grande e prolongada diferença entre r e g; e os estudantes de Harvard e do MIT terão oportunidade de fazer pesquisa sobre as falhas de mercado defendendo o oposto. O resultado líquido disto é que a teoria económica se manterá basicamente inalterada e ainda mais difícil de mudar.

E é tudo.

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[1] Se dúvidas há sobre este tema, sugerimos a leitura do trabalho de François Morin, bem claro quanto ao forte impacto negativo da regra de rentabilidade chamada de valor accionista exigida pelo capital financeiro ao capital produtivo. Veja-se por exemplo a participação de François Morin na obra Perspectivas para uma outra zona euro, editada pela Coimbra Editora, em Janeiro de 2014.

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Bibliografia

Concialdi, Pierre, “Para uma convergência económica e social”, Conferência Um outro euro para a reconfiguração económica e social da Europa, organização da Rede de economistas progressistas e pelos Economistas Aterrados, Coimbra, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 12 de Março de 2014

Galbraith, James, Kapital for the Twenty-First Century?, texto disponível em: http://www.dissentmagazine.org/article/kapital-for-the-twenty-first-century

Krugman, Paul, “Why We’re in a New Gilded Age”, New York Times, Maio de 2014

Krugman, Paul, “The Piketty Panic”, New York Times, Abril de 2014

Mota, Júlio, De Ricardo a Marx, de Marx a Ricardo, nos caminhos da globalização, Coimbra, FEUC e publicado no site A Viagem dos Argonautas, Maio de 2012

Mota, Júlio et al., Perspectivas para uma outra zona euro, Coimbra, Coimbra Editora, 2014

OIT, World of Work Report 2011: making markets work for jobs, Novembro, 2011

Palley, Thomas, The accidental controversialist: deeper reflections on Thomas Piketty’s ‘Capital’, Abril de 2014, disponível em http://www.thomaspalley.com/?p=422

Piketty, Thomas, Le capital au XXe siècle, Paris, Seuil, 2013

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Para ler a Parte X deste trabalho de Júlio Marques Mota,  publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/06/11/sobre-o-texto-de-ricardo-a-marx-de-marx-a-ricardo-sobre-o-livro-de-piketty-sobre-a-dinamica-das-desigualdades-algumas-reflexoes-por-julio-marques-mota-6/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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