CONTOS & CRÓNICAS – “Tocava a filarmónica no Largo da Estação” – por António Sales
carlosloures
Na manhã do dia 25 de Maio tocava a filarmónica no largo da estação apinhado de gente. O administrador do concelho, vereadores, pároco, presidentes de colectividades, burgueses de chapéu alto e casaca, gentilíssimas damas e muito povo de tez escura aguardavam convidados e jornalistas vindos de Lisboa. Desembarcaram os visitantes ao som da música e dos foguetes para a jornada de inauguração das Termas da Fonte Nova, propriedade de António dos Santos Bernardes, cujas águas tratavam dispepsias, afecções do baço e do fígado, não concorrendo assim com as dos Cucos. Banda na rua, foguetes no ar, povo a visitar o edifício, almoço, discursos, corte de fita, livro de honra e jantar no Hotel Natividade com pastéis da Fonte Nova à sobremesa que custavam ao público 240 réis a dúzia. As novas termas abriam de Junho a Outubro e contribuíam não apenas para minorar os males do corpo como para animar o comércio e o marasmo locais.
Não esperou Dias Neiva para no ano seguinte abrir os Cucos com o hotel ampliado em trinta quartos, o casino renovado num vasto edifício com amplas salas de jogo, música, restaurante, jardim e até um pequeno teatro onde viria a apresentar-se a companhia do Real Coliseu de Lisboa saborosamente designada “troupe de artistas”. Magnífica época se tivermos em conta que em Fevereiro de 1896 era autorizada a exploração das Termas das Águas Santas do Vimeiro ao sobralense João Pedro Cardoso seu proprietário.
Se a inauguração do “estabelecimento hidrológico” da Fonte Nova foi um sucesso o das Termas dos Cucos, que havia ocorrido em Maio de 1893, teve a projecção de um empreendimento colocado entre as melhores termas do país. José Gonçalves Dias Neiva, espírito providencial do complexo termal tal como hoje o conhecemos à distância de mais de cem anos, foi homem de iniciativa e capacidade realizadora que os seus descendentes jamais viriam a ter. Fundou os Cucos sob o traço do arquitecto António Jorge Freire mantendo o carácter visionário que lhe permitiu idealizar uma vila termal de quarenta moradias, hotel com trezentos quartos, albergaria, hospital, capela e mercado, chegando a estabelecer projectos e contactos com a Câmara. O plano ficou pelo caminho e o termalismo, que no final do século XIX e princípio do XX era a maior aposta turística da região, chega à actualidade a remexer nas cinzas das oportunidades eternamente adiadas.
O caminho-de-ferro acelerara a passagem do tempo mas também das iniciativas. Os últimos dez anos do século XIX foram açoitados pela construção de uma praça de touros, duas termas, uma avenida, um Grémio Artístico e até a simplicidade de um coreto significou marca de progresso. O Grémio, o Casino e o teatrinho dos Cucos permitiram a visita de pequenas companhias de Lisboa que aqui se instalavam algumas vezes por períodos alargados. O Teatro do Princípe Real, a Companhia Dramática Caetano Pinto, a Companhia de Zarzuela Cómico-Lírica (que fez um espectáculo a favor do actor torriense Januário Albino), o Teatro Lozano que em 1892 teve larga temporada com dois espectáculos semanais. Elencos cujas estadias de meses criavam relações de simpatia quando não de amizade, acabando por conduzir à integração de amadores locais nos seus trabalhos ouincorporando profissionais nas representações de amadores.
Embora se respeitasse a lei de 24 de Maio de 1740 que estabelecia o luto para as diferentes classes de parentesco («Por pessoas reais, pela própria mulher, por paes, avós e bisavós, por filhos, netos e bisnetos, traja-se lucto sómente 6 mezes; por sogro ou sogra, genro ou nóra, irmãos e cunhados, 4 mezes; por tios, sobrinhos e primos co-irmãos, 2 mezes; e não se toma lucto por outros parentes mais remotos senão por 15 dias») tornara-se indiscutível que a vida e os costumes despiam os crepes colectivos de modo que a alegria, a vivacidade e a iniciativa abrissem horizontes de claridade numa vila que, todavia, continuava praticamente às escuras.