REACÇÃO CONTRA O CULTISMO E O CONCEPTISMO, por João Machado
joaompmachado
Este texto foi publicado a primeira vez no Estrolabio, no VerbArte, em 23 de Março de 2011
Este ano comemora-se o centenário do nascimento de vários vultos do neo-realismo. Umas terão mais destaque, como Alves Redol e Manuel da Fonseca, outras menos, como Políbio Gomes dos Santos e Afonso Ribeiro. Estas comemorações revestem-se da maior importância para a cultura portuguesa, e não apenas para os admiradores do neo-realismo. Convém recordar a propósito que o neo-realismo, na literatura, e na arte em geral, se afirmou como a expressão do primado do conteúdo sobre a forma, em oposição a outras correntes tidas como tendencialmente inócuas.
Sem querer, para já, entrar mais fundo nesta questão, há que recordar que este conflito entre forma e conteúdo vem na continuação de um diálogo permanente entre a vontade de fazer sentir, de dar a conhecer a outrem (aos leitores, aos espectadores, aos ouvintes) problemas, situações, sentimentos, e a procura da melhor maneira, da maneira mais agradável ou mais eficaz de o fazer. A reacção ocorrida no século XVII contra os estilos chamados de cultista ou culto, e de conceptista inscreve-se neste diálogo, por vezes francamente conflituoso. O professor Hernâni Cidade (1887-1975), no prefácio à colecção de poesias do século XVII, oriundas principalmente da “Fénix Renascida”, intitulada A Poesia Lírica Cultista e Conceptista, editada por Textos Literários, diz que o cultismo e o conceptismo são duas expressões de um conceito de poesia fundamentalmente idêntico, integrado no estilo da época barroca, que a reduz a uma actividade puramente lúdica. Mas na altura já havia quem discordasse deste conceito. Exemplo será a poesia, de que a seguir se transcreve uma parte, incluída naquela colecção, que terá sido composta por Diogo Camacho (Pegureiro do Parnaso):