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A POESIA “RACIONADA”. A PROPÓSITO DA EDIÇÃO DE “A MORTE SEM MESTRE”, DE HERBERTO HELDER – por Manuel Simões

Já tinha acontecido no ano passado, com a publicação de Servidões: edição limitada por decisão do autor, o que acabou por provocar maior interesse por parte dos consumidores e potenciar o valor comercial do objecto, como se se tratasse de um investimento financeiro. Dizem-me que os alfarrabistas já vendem 1 exemplar por 300 euros, e a cotação tenderá a subir, de acordo com a exiguidade dos exemplares disponíveis.

A mesma estratégia ocorreu agora com a publicação de A Morte sem Mestre, largamente antecipada pelos editores (Assírio & Alvim/ Porto Editora), estratégia que suscitou ainda maior interesse do público a partir da decisão, estabelecida pelos editores, de vender apenas um exemplar, na Feira do Livro, a cada interessado. Tal como no sector financeiro: quanto menor for o número de acções postas à disposição do mercado, maior será a procura por parte dos investidores/especuladores.

Ora sendo Herberto Helder indiscutivelmente um grande poeta mas não de leitura fácil, por vezes até de interpretação óstica, não é sem perplexidade que se constata esta quase histeria pela posse do livro, e que se observa uma submissão do poeta a uma operação comercial, quando se sabe que, em clara contraposição, não tem o culto da imagem, não concede entrevistas e recusou todos os prémios que lhe foram outorgados. No mínimo, é um enigma que o último Herberto Helder vem acentuando, em concomitância com os editores: por um lado impedem uma maior divulgação da obra; por outro, talvez a contragosto, transformam-na numa mera operação mercantil.

E, no entanto, nem sempre parece ter sido este o entendimento do autor: em 1999, ao organizar uma “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea” e publicada em Veneza, pedi autorização, através do editor (Assírio & Alvim, na altura com outros responsáveis), para incluir o poeta; foi-me respondido que o mesmo não autorizava tal inclusão. Acabei por saber, por um intermediário incrédulo, que o poeta não tinha sequer conhecimento da minha diligência, dando então, com toda a generosidade, não só o seu consentimento, como se disponibilizou a enviar-me um documento assinado por si, para minha defesa.

Não posso, pois, concordar com o modo como se publicaram os dois últimos livros de poesia do autor. Afinal, o que poderia parecer um reflexo do carácter esquivo do poeta, transformou-se numa operação de algum modo maquinosa, quase a imitar os métodos de lançamento de um Harry Potter qualquer.

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