Já tinha acontecido no ano passado, com a publicação de Servidões: edição limitada por decisão do autor, o que acabou por provocar maior interesse por parte dos consumidores e potenciar o valor comercial do objecto, como se se tratasse de um investimento financeiro. Dizem-me que os alfarrabistas já vendem 1 exemplar por 300 euros, e a cotação tenderá a subir, de acordo com a exiguidade dos exemplares disponíveis.
A mesma estratégia ocorreu agora com a publicação de A Morte sem Mestre, largamente antecipada pelos editores (Assírio & Alvim/ Porto Editora), estratégia que suscitou ainda maior interesse do público a partir da decisão, estabelecida pelos editores, de vender apenas um exemplar, na Feira do Livro, a cada interessado. Tal como no sector financeiro: quanto menor for o número de acções postas à disposição do mercado, maior será a procura por parte dos investidores/especuladores.
Ora sendo Herberto Helder indiscutivelmente um grande poeta mas não de leitura fácil, por vezes até de interpretação óstica, não é sem perplexidade que se constata esta quase histeria pela posse do livro, e que se observa uma submissão do poeta a uma operação comercial, quando se sabe que, em clara contraposição, não tem o culto da imagem, não concede entrevistas e recusou todos os prémios que lhe foram outorgados. No mínimo, é um enigma que o último Herberto Helder vem acentuando, em concomitância com os editores: por um lado impedem uma maior divulgação da obra; por outro, talvez a contragosto, transformam-na numa mera operação mercantil.
E, no entanto, nem sempre parece ter sido este o entendimento do autor: em 1999, ao organizar uma “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea” e publicada em Veneza, pedi autorização, através do editor (Assírio & Alvim, na altura com outros responsáveis), para incluir o poeta; foi-me respondido que o mesmo não autorizava tal inclusão. Acabei por saber, por um intermediário incrédulo, que o poeta não tinha sequer conhecimento da minha diligência, dando então, com toda a generosidade, não só o seu consentimento, como se disponibilizou a enviar-me um documento assinado por si, para minha defesa.
Não posso, pois, concordar com o modo como se publicaram os dois últimos livros de poesia do autor. Afinal, o que poderia parecer um reflexo do carácter esquivo do poeta, transformou-se numa operação de algum modo maquinosa, quase a imitar os métodos de lançamento de um Harry Potter qualquer.
Inteiramente de acordo!
Nunca vi o anterior livro de Herberto Helder. O mesmo acontecerá, muito provavelmente, com este.
A “estratégia restritiva” decidida pelo autor e/ou pelos seus editores é contraditória com a recusa do “culto da personalidade”, desde sempre transmitida por HH, transformando o lançamento dos seus dois últimos livros, como muito bem analisa este artigo, numa operação mercantil, com a subsequente “especulação bolsista” e, inevitavelmente, num empolamento daquilo que se proclama recusar.
Conhecedor e admirador da obra de HH desde a minha adolescência, não me disponibilizo para agitações de tipo roqueiro, como se se tratasse de adquirir bilhetes para o “espectáculo único deste grupo – ou “banda”, como a inglesice reinante impôs –, pela primeira vez (ou pela última, tanto faz) em Portugal, senhoras e senhores, meninos e meninas!”…
Infelizmente, sabemos que, sem esta estratégia de “chico-esperto”, não haveria três mil apreciadores (antigos e novos) de HH, capazes de uma abordagem inteligente e culta da sua poesia, que esgotassem vertiginosamente a edição, como, deste modo, se consegue…
Nunca comprei um livro – incluindo muitas primeiras edições (porque minhas contemporâneas ou, sendo anteriores, resultantes de encontros felizes) – para me gabar de que o tenho ou de que integro o selecto grupo de “privilegiados” que têm acesso ao seu conteúdo, neste caso artificialmente “sacralizado”, ainda que a maioria dos pretensos fiéis não o entendam ou sequer o leiam. Nunca foi essa a minha relação com os livros. E, no que se refere a privilégios, prezo os de algumas amizades, encontros, percursos e outros de semelhante índole. Os “privilégios” materiais ou ostentatórios repugnam-me.
Se HH e/ou os seus editores não querem que os seus verdadeiros leitores tenham acesso a estas obras, faço-lhes a vontade: não mobilizarei um só músculo para me afadigar na conquista de um dos primeiros lugares da bicha dos adquirentes, para garantir a obtenção da fabricada “raridade”.
Estas manobras editoriais desvirtuam – e pouco importa se conscientemente ou não, mas tenho dificuldade em acreditar, neste caso, em inocências pueris – a coerência que, por tanto tempo, reconhecíamos nas atitudes de HH.
Só posso dizer que tenho pena.
Inteiramente de acordo!
Nunca vi o anterior livro de Herberto Helder. O mesmo acontecerá, muito provavelmente, com este.
A “estratégia restritiva” decidida pelo autor e/ou pelos seus editores é contraditória com a recusa do “culto da personalidade”, desde sempre transmitida por HH, transformando o lançamento dos seus dois últimos livros, como muito bem analisa este artigo, numa operação mercantil, com a subsequente “especulação bolsista” e, inevitavelmente, num empolamento daquilo que se proclama recusar.
Conhecedor e admirador da obra de HH desde a minha adolescência, não me disponibilizo para agitações de tipo roqueiro, como se se tratasse de adquirir bilhetes para o “espectáculo único deste grupo – ou “banda”, como a inglesice reinante impôs –, pela primeira vez (ou pela última, tanto faz) em Portugal, senhoras e senhores, meninos e meninas!”…
Infelizmente, sabemos que, sem esta estratégia de “chico-esperto”, não haveria três mil apreciadores (antigos e novos) de HH, capazes de uma abordagem inteligente e culta da sua poesia, que esgotassem vertiginosamente a edição, como, deste modo, se consegue…
Nunca comprei um livro – incluindo muitas primeiras edições (porque minhas contemporâneas ou, sendo anteriores, resultantes de encontros felizes) – para me gabar de que o tenho ou de que integro o selecto grupo de “privilegiados” que têm acesso ao seu conteúdo, neste caso artificialmente “sacralizado”, ainda que a maioria dos pretensos fiéis não o entendam ou sequer o leiam. Nunca foi essa a minha relação com os livros. E, no que se refere a privilégios, prezo os de algumas amizades, encontros, percursos e outros de semelhante índole. Os “privilégios” materiais ou ostentatórios repugnam-me.
Se HH e/ou os seus editores não querem que os seus verdadeiros leitores tenham acesso a estas obras, faço-lhes a vontade: não mobilizarei um só músculo para me afadigar na conquista de um dos primeiros lugares da bicha dos adquirentes, para garantir a obtenção da fabricada “raridade”.
Estas manobras editoriais desvirtuam – e pouco importa se conscientemente ou não, mas tenho dificuldade em acreditar, neste caso, em inocências pueris – a coerência que, por tanto tempo, reconhecíamos nas atitudes de HH.
Só posso dizer que tenho pena.