A atribuição do prémio Fé e Liberdade a Soares dos Santos provocou espanto e indignação em meios católicos progressistas. O galardão é outorgado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e será entregue no dia 24 de Junho, no decorrer do Forum Político do Estoril, no qual intervirão dezenas de participantes portugueses e estrangeiros. Quem é Soares dos Santos? Eliseo Alexandre Soares dos Santos, ex-presidente do grupo Jerónimo Martins, é dono de uma das maiores fortunas de Portugal.
Num documento enviado à reitoria da Universidade Católica Portuguesa assinado por cerca de três dezenas de católicos, entre os quais Frei Bento Domingues, o historiador José Mattoso, os jornalistas Jorge Wemans e António Marujo, a professora universitária Isabel Allegro de Magalhães e o musicólogo Rui Vieira Nery, explica-se que a denúncia não é movida por “qualquer ressentimento contra a pessoa” em causa, mas pelo “dever” de, em consciência, tornar audível a voz dos cristãos que não querem – não podem – silenciar” a sua indignação.
“Um prémio tem um valor simbólico e testemunhal, pelo que, nas presentes circunstâncias, ocorre perguntar: O que é que se pretende enaltecer? Que valores merecem apreço explícito por parte da Universidade Católica? Quais os conceitos de fé e de liberdade que estão implícitos nesta atribuição?”, questionam os subscritores. E dizem que foi com “grande perplexidade, tristeza e indignação” que tiveram conhecimento de que o Instituto de Estudos Políticos da UCP deliberou atribuir o prémio “Fé e Liberdade” a Soares dos Santos – perguntam : «o que se pretende distinguir na personalidade de Alexandre Soares dos Santos. Uma colossal fortuna pessoal? Uma forma de enriquecimento baseada nos ganhos do capital e sua acumulação? Práticas de exploração do trabalho humano (baixos salários, horários excessivos, precariedade nas relações laborais)? Expedientes fiscais para fugir aos impostos?.Um modelo de economia que permite o desemprego massivo, a grande concentração do património individual e correspondente poder político, com risco para a democracia e para a coesão social?».
Notando que a decisão vai também contra aquilo que tem sido o ensinamento e os apelos mais recentes do papa Francisco, os subscritores gostariam de ver a UCP empenhada na denúncia de “uma economia que mata”, em especial pelo que produz “de grande pobreza, desemprego maçiço, excessivas e crescentes desigualdades, riscos ecológicos sérios”, naquilo que é uma das maiores ameaças à liberdade e à democracia».
Tudo muito bem. Apenas uma pergunta aos subscritores:
Porquê o espanto?
Alguma vez a Igreja Católica Apostólica Romana procedeu de outra forma? Surpreendidos ficaríamos se o prémio fosse atribuído a alguém que realmente tivesse demonstrado fé nos princípios enunciados e na liberdade. A Igreja sempre desmentiu com os actos as belas palavras com que ornamenta as homilias dos seus ministros.