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A IDEIA – PARAFRASEANDO MÁRIO CESARINY – por João Rui de Sousa

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Uma certa quantidade de gente à procura

De gente à procura duma certa quantidade

MÁRIO CESARINY

E eu – quase feito um vulto de cristal,

quase transformado no cristal de um furor

que ao mesmo tempo une e atormenta –

contemplo um fulminante rosto

tal como se fosse um cão circunspecto,

rendido e atordoado.

Uma certa quantidade move-se na cidade.

Ela procura e procura, e mastiga e mastiga.

E transforma-se. Tal como o faz um qualquer

animal. Tal como um simples sopro embrionário.

Tal como estrela transfigurada em curral de morte.

Tal como as crinas distribuídas

por paisagens de sono.

A certa quantidade parte de pontos vários

de um planeta mudo e distante

onde os sonhos se diluem ou dilaceram

antes de se acolherem ao nosso rosto

ou rolam pausadamente e felizes

como promissoras esferas, como aves

anunciadoras de claridades fraternas

(matinais)

Uma certa última (não única) quantidade,

uma certa euforia no acordar de súbitas

gargalhadas, um mesmo cantar

de húmidas raízes, alheias ao estrondo

de falésias desmoronadas ou de um mero

acidente súbito cardiovascular.

Mesmo no incerto de uma certa quantidade

pressinto-te como névoa, ó rainha de xisto

e de esplendor. Pressinto-te arquejante nessa

teia onde o vento pouco conta e a própria quantidade

(de gente, sobretudo) não fala senão por gritos

transviados, por estranhas deformações,

por máquinas de demasiado uso,

enfim, por árvores entristecidas, talvez secas.

A certa quantidade nasce sempre

que qualquer dor se forme (mesmo não visível),

sempre que o sofrimento nos percorra (mesmo

sob um véu de flamejantes laranjas).

Mas também nasce na florida mão duma criança,

em uvas consistentes e carnudas, na música feliz

de anjos cantantes ou no ardor

de um sol justo e fraterno.

 

 

 

 

 

 

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