Uma certa quantidade de gente à procura
De gente à procura duma certa quantidade
MÁRIO CESARINY
E eu – quase feito um vulto de cristal,
quase transformado no cristal de um furor
que ao mesmo tempo une e atormenta –
contemplo um fulminante rosto
tal como se fosse um cão circunspecto,
rendido e atordoado.
Uma certa quantidade move-se na cidade.
Ela procura e procura, e mastiga e mastiga.
E transforma-se. Tal como o faz um qualquer
animal. Tal como um simples sopro embrionário.
Tal como estrela transfigurada em curral de morte.
Tal como as crinas distribuídas
por paisagens de sono.
A certa quantidade parte de pontos vários
de um planeta mudo e distante
onde os sonhos se diluem ou dilaceram
antes de se acolherem ao nosso rosto
ou rolam pausadamente e felizes
como promissoras esferas, como aves
anunciadoras de claridades fraternas
(matinais)
Uma certa última (não única) quantidade,
uma certa euforia no acordar de súbitas
gargalhadas, um mesmo cantar
de húmidas raízes, alheias ao estrondo
de falésias desmoronadas ou de um mero
acidente súbito cardiovascular.
Mesmo no incerto de uma certa quantidade
pressinto-te como névoa, ó rainha de xisto
e de esplendor. Pressinto-te arquejante nessa
teia onde o vento pouco conta e a própria quantidade
(de gente, sobretudo) não fala senão por gritos
transviados, por estranhas deformações,
por máquinas de demasiado uso,
enfim, por árvores entristecidas, talvez secas.
A certa quantidade nasce sempre
que qualquer dor se forme (mesmo não visível),
sempre que o sofrimento nos percorra (mesmo
sob um véu de flamejantes laranjas).
Mas também nasce na florida mão duma criança,
em uvas consistentes e carnudas, na música feliz
de anjos cantantes ou no ardor
de um sol justo e fraterno.

