A IDEIA 3

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1960 – Mário Cesariny dá a lume a versão portuguesa de Une Saison en Enfer, ainda com o título Uma Estação no Inferno, depois alterado para Uma Cerveja no Inferno, de Jean-Arthur Rimbaud, a que junta prefácio e notas. Aparecem o segundo e o terceiro números da revista Pirâmide, com colaboração de António José Forte, Manuel de Castro, Virgílio Martinho, Herberto Helder, D’Assumpção, Luiz Pacheco, José Carlos Gonzáles, José Sebag, Alexandre Saldanha da Gama, Ernesto Sampaio e outros. Forte estreia-se em livro, na colecção de Cesariny, “A Antologia em 1958”, com 40 noites de insónia de fogo de dentes numa girândola implacável e outros poemas, com extra-texto de João Rodrigues. No mesmo ano a colecção dá a lume três outros folhetos: Poesia de arte e Realismo poético, de Natália Correia, Novelas de Narciso de Francisco de Sousa Neves e Uma Carta para Palma Ferreira de Pedro Oom. Manuel Granjeio Crespo publica Os Implacáveis, a sua primeira obra dramática (tem 21 anos), parafraseando o essencial. Alexandre O’ Neill publica na Guimarães Editores Abandono Vigiado. Afonso Cautela estreia-se com Espaço Mortal; Manuel de Castro dá a lume o seu derradeiro livro A Estrela Rutilante. Luísa Neto Jorge estreia-se com Noite Vertebrada. “Declaração dos 121” em França, a favor da insubmissão e da objecção de consciência à guerra da Algéria, assinada por André Breton e Albert Camus.

1961 – Inicia-se a guerra em Angola a favor da independência. Mário Cesariny publica Poesia 1944-1955 (com desenho de João Rodrigues), Planisfério e outros poemas, livro dedicado a Vieira da Silva e Arpad, e Antologia Surrealista do Cadáver-Esquisito (colaborações escritas de Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, António Domingues, Mário-Henrique Leiria, Carlos Calvet, João Artur Silva, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, Pedro Oom, Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Mário Sá-Carneiro, Alfredo Margarido, Carlos Eurico da Costa, José Sebag, Herberto Helder, João Rodrigues, Ernesto Sampaio e Gonçalo Duarte; pictóricas de Mário-Henrique Leiria, Cruzeiro Seixas, Simon Watson Taylor e Mário Cesariny). Em “stencyl” Luiz Pacheco edita o depoimento duma angolana – texto anti-colonialista de Maria Alice Veiga Pereira (com parágrafos finais de Alfredo Margarido) e a que aludirá em O Libertino. Ernesto Sampaio traduz e edita A Literatura no Estômago de Julien Gracq. Virgílio Martinho publica em edição de autor Orlando em Tríptico e Aventuras. Alfredo Margarido publica Teixeira de Pascoaes – a obra e o homem. António Barahona publica em edição de autor Insónias e Estátuas. Herberto Helder, na chancela de L. Pacheco, dá a lume Poemacto; na mesma chancela Cântico do País Emerso de Natália Correia. Afonso Cautela publica O Nariz. Luiz Pacheco escreve o Libertino Passeia por Braga o seu Esplendor numa surtida ao Minho, entre 15 e 17 de Outubro, texto que só verá a luz em 1970. Aparece em Outubro o primeiro número da revista La Brèche, nova publicação do surrealismo em França.

1962 – Mário Cesariny organiza a segunda edição, em dois volumes, na editora de Francisco da Cunha Leão, dos poemas e textos de Ossóptico, Erro Próprio, Isso Ontem Único, A Verticalidade e a Chave de António Maria Lisboa. Na mesma editora, Fernando Grade publica Sangria, sua estreia, com inteira adesão de Cesariny e O’Neill. Em Maio, depois dos episódios que levaram a uma invasão do café pela polícia de choque, o café Gelo é interdito pelo seu proprietário às reuniões do grupo, que se passa para o café Nacional, nas traseiras do Rossio, na rua Primeiro de Dezembro. Maria Helena Vieira da Silva vem a Lisboa, na Primavera; Mário Cesariny manifesta-lhe o projecto de vir a escrever um livro de interpretação e louvor da sua obra. Manuel Granjeio Crespo parte para Paris. Luiz Pacheco organiza e publica o terceiro e último número da revista Contraponto, cadernos de crítica e arte, com colaboração da gente do Gelo (Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte, Virgílio Martinho); apareceu na Sertã, em Agosto e sem as folhas intermédias, que foram cortadas pela censura. Carlos Loures publica Barca Solar.

1963 – Mário Cesariny publica a colectânea Surreal–Abjeccion-ismo, que abre com o texto de Afonso Cautela de 1958 sobre a falência do neo-realismo. Avaliá-lo-á assim mais tarde (As Mãos na Água e a Cabeça no Mar, 1985, p. 239): colectânea não-surrealista nem-abjeccionista mas sim grafada Surreal-Abjección, o “ismo” em muitíssimo mais pequeno, coisa que, parece, não convenceu ninguém, o que foi e é pena pois aqui e agora e sempre em todo o lado o surrealismo não tem nada a ver com o abjeccionismo ou só terão de comum o haverem-se conhecido na cadeia, onde vai tanta gente por tão diversos cantares e até só por recreio, visita de estudo e turismo (…). No lançamento da antologia, na Casa da Imprensa, a 30 de Março, Mário Cesariny lê o curto texto de Luiz Pacheco, “O que é o neo-abjeccionismo”, depois incluído em Textos Locais (1967) e republicado em Exercícios de Estilo (1971). Aparece o último número, o décimo segundo, em Paris, da revista KWY. Mário Cesariny edita (sem data) na colecção “A Antologia em 1958” Uma Carta de António Maria Lisboa. Ernesto Sampaio traduz e edita a Ode a Charles Fourier de André Breton. Mário Cesariny escreve para a Fundação Gulbenkian, requerendo apoio para o plano de escrever um livro sobre Vieira da Silva, a que se segue pouco depois carta decisiva de Vieira da Silva em apoio da ideia. Em Fevereiro do ano seguinte, Mário Cesariny obtém bolsa dum ano para concretizar pesquisas, redigir o ensaio e recolher imagens, bolsa que o levará a Paris e a Londres (onde pela primeira vez terá contacto com a Irmandade Pré-Rafaelita, na qual verá o surrealismo antes do surrealismo e que tanto lugar virá a ocupar na sua visão anti-clássica e anti-renascentista). António Telmo publica Arte Poética, sua estreia em livro, em que se ocupa das catábases iniciáticas ou da tradição poética que tem no centro a descida aos infernos, de Virgílio a Dante, do Teixeira de Pascoaes de Regresso ao Paraíso (1912) ao Mário Cesariny tradutor da estação infernal de Rimbaud. Retomará esta linha de leitura pouco depois, no ano da morte de André Breton, no texto “Arte Poética e Surrealismo” (Espiral, n.º 8/9, 1966, pp. 119-122) e a ela regressará, com intermitências, até ao final.

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