CONTOS & CRÓNICAS – Torres Vedras no fim do século XIX – por António Sales
carlosloures
Se o homem da Corredoura bradava por luz na noite escura o jornalA Vinha de Torres Vedras clamava por higiene na via pública: «Estamos vivendo num verdadeiro chavascal. Por todos os lados se vêm montoeiras sem haver quem providencie (…) O encarregado dos serviços municipais já não manda varrer as ruas nem limpar as sargetas», criando um aspecto deplorável e nauseabundo a merecer os protestos da população. Compensava-a desta estrumeira os dias «formosíssimos e as noites luarentas» de mais para uma estação cuja proximidade do Natal agitava as colectividades na preparação dos tradicionais bailes e récitas normalmente encerrados com vistosos cotillons.[1] No calor da diversão chamava-se a atenção num jornal local para a «conveniência que haveria em dispor as cousas» no Grémio Artístico Comercial «de forma a não se constiparem os espectadores como aconteceu a muitas pessoas que assistiram à última récita e que ainda hoje andam aespirrar devido à frescura que se sentia».
Não a mesma, certamente, que sentiam os utilizadores dos americanos, espécie de transporte público puxado por muares que António Duarte Capote acabava de introduzir na gama dos seus breacks e trens de aluguer que faziam dele o mais importante industrial de transportes da vila. Nas noites de teatro ou festas sociais os veículos eram insuficientes para os pedidos pelo que as famílias faziam marcações com a antecedência de dias. Chegado o Natal o movimento tornava-se de tal modo intenso que a circulação viária atingia uma espécie de paroxismo multiplicado em 1899 pela fortuna da taluda de 150.000 réis atribuída ao comendador Francisco Avelino de Carvalho e o segundo prémio distribuído em fracções pelo cauteleiro Manuel Inácio.
O século acabava em beleza e o novo, aquele que no imaginário colectivo representava uma magnífica aventura batia à porta com as surpresas que iriam transformar profundamente a vida da humanidade. Espanta, porém, observar como esse porvir não encontra eco na imprensa local. A aproximação do século supostamente revolucionário não chega a ter direito a ser iluminado sequer por um candeeiro a gás, basta-lhe a modesta vela. Há um silêncio lunar, um confrangedor alheamento do futuro não obstante a electricidade, o telefone, o telégrafo, a máquina de escrever, o automóvel, o aeroplano, o cinema, a gravação magnética, a aspirina. Aqui passava-se ao lado como se Torres Vedras fosse uma aldeia nos Andes cujo cultivo ancestral da vinha era objectivo único e sagrado. Neste particular, o divórcio com a modernidade é dramático. Não para todos é certo. O Grémio ampliava o salão-teatro com a construção de galerias, João Guimarães Júnior procurava vontades que quisessem pôr de pé uma revista que falasse dos tempos modernos chegando a contactar o jovem Júlio Vieira que estudava por essa altura em Lisboa na Escola Superior de Belas Artes. Marques Pitada, entusiamado pelo Panhard e Lavassor de dois cilindros em vê e quatro cavalos, do Conde Avilez, que passara em Torres Vedras, adaptava um breack com um motor que tinha por volante uma alavanca de direcção. Pozzal regressava de Lisboa onde fora ver, no Real Coliseu da Rua da Palma, essa ficção baptizada por Cinematographo Lumière que o deixou estupefacto. «O mundo sentado ao colo, acreditem! – não se cansava de apregoar a clientes e amigos. Vai ser mais do que o teatro, mais do que a fotografia. Vai ser a arte mágica do século XX». Efectivamente, Pozzal tinha razão.
[1] Os cottilons foram muito populares nos últimos vinte anos do século XIX e em Torres Vedras ainda se dançavam pelos anos trinta do século XX. Constituíam-se por danças marcadas e configurando figuras sujeitas a um tema e à distribuição de prendas. Alguns cottillons chegavam a ter um guarda-roupa especial e um chefe de dança para as
marcações e desenhos dos pares. É frequente encontrarmos nos jornais do tempo referências do género «com lindas e novas marcas vindas de Lisboa» ou «houve baile marquê que terminou com um vistoso cotillon».