CONTOS & CRÓNICAS – A Páscoa de 1895 em Torres Vedras – por António Sales

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  Não há andaimes com homens pendurados nem gente carregando tábuas para construir um palco mas pinturas a fazer, marcações a acertar, cenários a pregar, música a ensaiar. Desde há dias que o frenesi percorre o Largo D. Carlos I se não mesmo a vila. Homens e mulheres, cada qual com a sua tarefa, trabalham na montagem de cena da maior representação teatral que Torres Vedras vira levada a cabo pelos seus amadores. Riem, labutam, sujam-se, transpiram, comem sandes apressadamente, repetem diálogos vezes sem conta, treinam-se a ouvir o ponto, submetem-se a provas de guarda-roupa, ensaiam a partitura musical, atentam nas entradas marcadas pelo contra-regra. Todos vivem com antecipada emoção o Domingo de Páscoa de 1895 em que irão assumir, num trabalho de fôlego, o desafio das suas capacidades e talento.

A vila já presenciou teatro suficiente para saber distinguir o bom do mau. Por aqui passaram diversas companhias de Lisboa e grandes profissionais como o actor Gomes, o actor Taborda, o actor Vargas, tão populares que bastava-lhes um único nome para os identificar. Mas a vila nunca assistira à fascinante aventura dos amadores porem em cena O Comissário de Polícia, de Gervásio Lobato, envolvendo em palco vinte actores mais figurantes, músicos, contra-regra, ponto, maestro, um conjunto de vontades capaz de opor à tradição local de peças em um acto esta comédia em quatro actos. O Grémio Artístico Torreense “importava” de Lisboa os cenários e guarda-roupa que tinham servido no palco do Teatro Ginásio e contribuíam para tornar memorável esta representação “num vasto salão do edifício da Graça”. Francisco de Miranda fez o comissário, A. Avelino, Augusto Cabral e as senhoras D. E. Ogêa e D. E. Santos secundaram-no nos principais papéis. João Guimarães foi o ensaiador e a orquestra teve a direcção de José Rodrigues Vallador que era um dos nomes mais frequentes a par do maestro Lagrange. «Um mimo, menino! Uma representação notável!», proclamou Alves Soares, poeta de serões românticos, para o fotógrafo Martinez Pozzal que trabalhara nos retratos do espectáculo. E era como se o dissesse à minha pessoa pressentindo que um século depois alguém faria o registo daquela inesquecível noite. Elogio merecido, diga-se, porque O Comissário (que só voltaria a ser representado na vila vinte e sete anos depois) constituiu uma pedrada na tradição da frivolidade conforme o referiu o doutor Justino Freire ao seu amigo João Guimarães. Vida, alegria, talento foi o que sentiu Júlio Vieira no juvenil entusiasmo dos seus quinze anos e naquela sala superlotada que voltaria a encher na segunda récita, no salão teatro da colectividade, no dia da inauguração do “estabelecimento hidrológico” das Termas da Fonte Nova.

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