A adesão da Guiné Equatorial à CPLP e a sua aceitação no seio de uma comunidade que, para além dos valores linguísticos e culturais da Lusofonia, afirma reger-se em ordem ao Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação, dos Direitos Humanos e da Justiça Social, viola claramente o que se afirma no Artigo 5º onde se enunciam os Princípios Orientadores da organização. No plano dos princípios, a adesão de um dos mais tenebrosos estados policiais do mundo condena a CPLP à morte.
A admissão da Guiné Equatorial e, em contrapartida, a não aceitação como membro de pleno direito da Galiza, berço do idioma, revela claramente o oportunismo dominante na organização – a Galiza, sendo uma nação, não é um estado e, nessa medida, só o Estado espanhol poderá sancionar a adesão da Galiza. Neste caso, os estatutos são invocados e cumpridos com rigor. A Guiné Equatorial, onde o português não é falado, embora seja oficialmente a terceira língua, onde os direitos humanos são grosseiramente violados, onde se mata pessoas nas ruas por mero capricho, um país semelhante à Dominicana, de Trujillo, pode ser admitido. O petróleo e o gás natural abundantes compensam a inexistência de liberdade. Moralmente, a CPLP morreu – os torcionários do presidente Teodoro Obiang «levaram-na a passear».
Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, defende a aceitação porque «a CPLP poderá vir a deter 20% da produção mundial de petróleo». É uma razão de peso. Mas faz lembrar o desabafo do proxeneta: «a gaja é uma grande p. … mas traz dinheiro para casa». Perante uma argumentação tão consistente os protestos são devaneios dos que ainda acreditam que os valores morais devem estar acima dos interesses económicos. Que ingenuidade!