EDITORIAL – GUINÉ EQUATORIAL CONDENA CPLP À MORTE

Imagem2A adesão da Guiné Equatorial à CPLP e a sua aceitação no seio de uma comunidade que, para além dos valores linguísticos e culturais da Lusofonia, afirma reger-se em ordem ao Primado da Paz, da Democracia, do Estado de Direito, da Boa Governação, dos Direitos Humanos e da Justiça Social, viola claramente o que se afirma no Artigo 5º onde se enunciam os Princípios Orientadores da organização. No plano dos princípios, a adesão de um dos mais tenebrosos estados policiais do mundo condena a CPLP à morte.

A admissão da Guiné Equatorial e, em contrapartida, a não aceitação como membro de pleno direito da Galiza, berço do idioma, revela claramente o oportunismo dominante na organização – a Galiza, sendo uma nação, não é um estado e, nessa medida, só o Estado espanhol poderá sancionar a adesão da Galiza. Neste caso, os estatutos são invocados e cumpridos com rigor. A Guiné Equatorial, onde o português não é falado, embora seja oficialmente a terceira língua, onde os direitos humanos são grosseiramente violados, onde se mata pessoas nas ruas por mero capricho, um país semelhante à Dominicana, de Trujillo, pode ser admitido. O petróleo e o gás natural abundantes compensam a inexistência de liberdade. Moralmente, a CPLP morreu – os torcionários do presidente Teodoro Obiang «levaram-na a passear».

Martins da Cruz, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, defende a aceitação porque «a CPLP poderá vir a deter 20% da produção mundial de petróleo». É uma razão de peso. Mas faz lembrar o desabafo do proxeneta: «a gaja é uma grande p. … mas traz dinheiro para casa». Perante uma argumentação tão consistente os protestos são devaneios dos que ainda acreditam que os valores morais devem estar acima dos interesses económicos. Que ingenuidade!

6 Comments

  1. Que exagero! estou convencida que a Guiné Equatorial encara a adesão à CPLP como uma oportunidade de democratização do seu estado!
    Ai de nós, se não soubermos desenvolver integralmente as oportunidades económicas, sociais e de cooperação que também a nós se proporcionam… Isso sim seria um atestado de minoridade a Portugal, o que muito me envergonharia.

  2. Este comentário parece muito excessivo e disparatado. A presença dos Estados Unidos, quer na NATO quer na posição que é a sua de tornar a UE um seu protectorado -sendo um país que mantém a pena de morte, apresenta elevada corrupção internacional, assassinatos de estado, tortura e invasões militares baseadas em pretextos inventados, a milhares de kms de distância, – mereceria, isso sim, um comentário fundamentado e drástico. Como sempre, os ‘puritanos’ cá do burgo burguezote (vidé o Miguel Sousa Tavares ou a Ana Gomes), voam baixo e batem puritanamente nos ‘pequenos’, que representam quase nada, e se situam num outro contexto cultural (gerontocrático e clânico, tipcamente africano), e poupam submissamente os grandes criminosos da história actual.

    1. Não sei como é que a Guiné Equatorial encara a adesão à CPLP, mas duvido que a oportunidade de democratização constitua um desiderato da família Obiang. Temos denunciado as torturas de Guantánamo e todas as prepotências dos Estados Unidos, nomeadamente na sua protecção ao sionismo e aos crimes que o exército israelita está a levar a cabo na Palestina. Porém, os crimes de uma superpotência não desculpam os que sejam cometidos em países do Terceiro Mundo. Não sei o que disseram os tais ‘burguesotes’. Nós não desculpamos os grandes criminosos da história, nem os que se cometem em contextos culturais eventualmente gerontocráticos e clânicos, por mais tipicamente africanos que sejam. A CPLP tem estatutos. A admissão da Guiné Equatorial viola ou não os princípios enunciados? É disso que se trata e não de uma discussão sobre folclore.

      1. há, como sempre, grandes confusões, na pleiade de crentes nas palavras, nos papéis, nos estatutos e noutros escritos que não fazem a história, porque a história é complexa e é tudo menos geométrica. Os escritos não fazem a história, nem na Bíblia, nem no Corão, nem nos Vedas, nem na filosofia, nem no direito, nem na CPLP, nem na ONU nem em parte alguma. Crença e dúvida (“duvido que a oportunidade de democratização constitua um desiderato da família Obiang”) são vôos mentais que dão gozo aos emissores, criando-lhes o sentimento de pertencerem a uma ‘elite moral’ que vive de discursos. o que falta é levar o poder da democracia a sério onde ela existe como oportunidade e não como ‘facto’ ou ‘direito’ (na UE por exemplo) e mudar o que está ao nosso alcance político mudar. A GE (e mais em geral a África) mudarão também (tudo muda) mas não será com o “sacerdócio jurídico” dos defensores de Estatutos. O mesmo se diga da pobreza na Europa, ou da marginalização dos ciganos em Portugal e do muito que está ao nosso mudar, agindo como cidadãos locais e não apenas como emissores de discursos. Por mais gozo que dêem aos seus emissores, palavras leva-as o vento.

      2. Pois, sem dúvida, palavras leva-as o vento e a desconversar tembém nos podemos entender. Para apoiar a aceitação da Guiné Equatorial na CPLP, não é preciso invocar a discriminação a que os ciganos estão sujeitos em Portugal. Para a repudiar e para não ser acusado de me deleitar com as palavras que emito, digo apenas – não.

  3. uma das formas mais subtis do racismo ‘branco’ passa pelo maciço desconhecimento das diferenciações culturais de raiz histórica e da colocação no plano dos ‘princípios’ ‘brancos’ (que as grandes potências constantemente subvertem ou esquecem sempre que lhes convém – como os “direitos do homem”, ou as “constituições”) contextos culturalmente muito diferentes e em evolução. Falar de “folclore” para falar de África é um bom exemplo de ignorãncia escolar e de racismo subtil. uma vez mais, lamentável. O “nós” do discurso assume um tom Jeovástico e “não desculpa” !!!! as diferenças históricas dos outros, como se lhe competisse pessoalmente “desculpar” ou não seja o que for em vez de problematizar o que de facto é problemático (o que implica conhecimentos e não apenas “princípios”).

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