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EDITORIAL – UM CENÁRIO COMPLICADO REQUER OUTRA MANEIRA DE VER AS COISAS

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A política que se convencionou chamar de austeridade abalou a Europa, nomeadamente a União Europeia. Após uns anos a sofrer os efeitos das panaceias aplicadas, que se resumem à diminuição do custo do trabalho, e ao corte nos apoios sociais, numerosas vozes a todos os níveis se levantam para condenar a austeridade, que poucos ou nenhuns benefícios parece ter trazido. Será conveniente recordar que houve quem beneficiasse com ela: a Alemanha reforçou a sua ascendência na Europa, e o sistema financeiro (nome eufemístico para o grande capital) conseguiu ultrapassar mais uma crise. Quanto a este último, o caso Espírito Santo será considerado por alguns como um epifenómeno; outros opinarão que se trata de um prenúncio da crise seguinte, talvez ainda maior que as outras anteriores. O problema é que o custo tem que ser pago, e não pode continuar a sê-lo sempre pelos mesmos.

Entretanto a política internacional ferve. Na Ucrânia, rebentou uma guerra (parece que ontem decretaram um cessar-fogo), que obviamente se insere num conflito entre o leste e o oeste à moda antiga. Pelo menos os seus promotores parecem assim pensar. No Próximo e no Médio Oriente a situação agrava-se cada vez mais: aquilo que ontem se julgava impossível, aparece hoje à luz do dia com grande estrondo. Continua a horrorosa situação do povo palestiniano, aparece um califa que ameaça tudo e todos, comete crimes horrendos que divulga em  moldes de Hollywood, e parece já ter imitadores, a Síria, o Iraque, a Líbia e outros países desfazem-se. Outros, como a Somália, já praticamente não têm estado organizado, estão em dissolução. Na América Latina, a Argentina é o alvo preferencial da alta finança, que quer uma desforra da ousadia de ter sido enfrentada. O Brasil luta com as suas contradições, de país de primeira grandeza e potencial colossal, onde a grande maioria quer a democracia e resolver os problemas das grandes diferenças sociais e da pobreza qua afecta tanta gente. No Oriente, a China também procura crescer, o Japão olha-a com receio, a Índia debate-se entre o peso da tradição e a obrigação de evoluir para um presente mais brilhante para os seus cidadãos. Por cima de todos, paira a superpotência, que quer fazer passar a imagem de que tem soluções para todos, quando nem os seus próprios problemas consegue resolver. Pretende a circulação livre de capitais, que a deixem instalar as sua bases militares onde pretende e que comprem os seus produtos, incluindo o armamento.

É tradicional que os países procurem resolver as suas crises internas à custa dos outros. A exportação dos problemas resultantes da desigualdade social, da poluição, da ignorância e do preconceito, é tradicional. E fazer guerras para ocultar tensões internas, idem. A história, antiga e recente, está cheia de exemplos sobre isto. Mas assim não haverá progresso, o tal progresso sustentável. Em tempos de ébola e de aquecimento global é preciso outra maneira de ver as coisas.

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