Capa do livro “Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta” (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011. «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»
Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de “Arte Poética V”, in “Ilhas”, Lisboa: Texto Editora, 1989)
Gritava Contra o Silêncio
Texto: Sophia de Mello Breyner Andresen (do conto “O Silêncio”, in “Histórias da Terra e do Mar”, Lisboa: Edições Salamandra, 1984, Lisboa: Texto Editora, 1990 – pág. 52)
Música: João Gil
Intérprete: João Gil* com Carminho* (in CD “João Gil”, EMI, 2008)
Gritava como se estivesse só no mundo,
como se tivesse ultrapassado
toda a companhia e toda a razão
e tivesse encontrado a pura solidão.
Gritava contra as paredes, contra as pedras,
contra a sombra da noite.
Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão,
como se o seu desespero e a sua dor
brotassem do próprio chão que a suportava.
Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela
os confins do universo e aí,
tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém a responder.
Gritava contra o silêncio.
* João Gil – guitarras acústicas
Rui Costa – guitarras acústicas e baixo
Massimo Cavalli – contrabaixo
Ruben Alves – piano e acordeão
Artista convidada:
Carminho – voz
Arranjos – Rui Costa
Produção – Rui Costa e João Gil
Produção executiva – Manuel Moura dos Santos
Gravado por Rui Guerreiro, nos Estúdios de Vale de Lobos, Almargem do Bispo – Sintra
Misturado por Joel Conde, nos Estúdios de Vale de Lobos, Almargem do Bispo – Sintra
Masterizado por Ricardo Garcia, nos Estúdios Master Disk, Rio de Janeiro
AQUELE QUE PARTIU
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Mar Novo”, Lisboa: Guimarães Editores, 1958; “Obra Poética II”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 67)
Recitado por Luísa Cruz* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento
E que ninguém repita o seu nome proibido.
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel