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CONTOS & CRÓNICAS – OS MALEFÍCIOS DA PRAXE ACADÉMICA – por Manuel Simões

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O primeiro contacto que estabeleci com a praxe académica deveu-se à leitura do estimulante romance de Fernando Namora, Fogo na Noite Escura (1943, 14ª. ed. refundida, 1988), onde o injustamente esquecido escritor faz a reconstituição romanesca das coordenadas coimbrãs da geração de 40, construídas com base em ambientes e episódios que envolvem precisamente a praxe, já então observada como manifestação obsoleta.

Nesse tempo, era apenas um fenómeno de Coimbra. Nos anos 60 eu próprio poderia ter sido vítima da praxe. Mas como fui sempre o que nessa altura se chamava “aluno voluntário” (mais ou menos o correspondente ao estatuto de estudante-trabalhador), sem a obrigatoriedade da frequência, só ficaria sujeito às “leis” praxistas se algum dia vestisse a capa e batina. Como tal não sucedeu por escolha pessoal – nunca gostei de fardas! -, fui um mero observador, ainda que intimamente revoltado, de situações ridículas e humilhantes, das rusgas nocturnas à caça de caloiros, os quais não podiam ficar na rua depois das 18 horas, com o pretexto de que deveriam adquirir hábitos de estudo.

A partir de certa altura tive o regozijo de observar a formação de contra-rusgas, com a função contrária de proteger os caloiros, o que significava a tomada de consciência de uma parte consistente da população estudantil (os anti-praxistas), a que recusava os costumes retrógrados e tradicionais de quem apostava na manutenção de práticas indignas de qualquer ser pensante. Em 1969 realizou-se a última “queima das fitas” da década, decisão que se manteve por alguns anos, com o desaparecimento das “capas negras” da geografia coimbrã. É conhecido o episódio de um nostálgico estudante que queria ter uma fotografia com capa e batina; porém, não ousando exibir-se em público, teve que se deslocar a um fotógrafo, levando numa mala as peças de roupa “incriminadas”.

Só que, com a involução política que se verificou em Portugal depois de Novembro de 1975 e com a lenta mas progressiva repressão contra o espírito do “25 de Abril”, a praxe académica reapareceu em força, alargando-se a todo o país; e como muitas vezes se confundiu liberdade com “liberdades” ou vandalismos, acabou por tomar formas cada vez mais degradantes, com pontas de uma gravidade inaudita pela sua violência e práticas de uma humilhação que desrespeita os mais elementares direitos humanos.

 Como era uma tradição consolidada e passivamente aceite, ninguém ousava protestar e muito menos publicamente. Mas, como em todos os casos de opressão, chega um dia em que se torna imperioso dizer “basta!”, grito ainda não suficientemente forte, até porque a quase totalidade dos abusos é silenciada pelos próprios humilhados, muitas vezes para evitar represálias, até da direcção das faculdades ou dos institutos. Sabe-se até (e aqui o fenómeno é ainda mais intolerável), que se exercem formas mais ou menos violentas da praxe em organismos estudantis supostamente mais orientados para actividades culturais, por exemplo nas tunas académicas, que agora proliferam por toda a parte. Mas talvez este aspecto não seja assim tão estranho, visto que as mesmas, nas suas aparições públicas, dão quase sempre uma imagem confrangedora do mau gosto musical, paralelo ao da música “pimba”, de que parecem ser  epígonos.

 Houve, como sabemos, algumas denúncias dos casos mais clamorosos e alguns chegaram mesmo aos tribunais, geralmente com processos arquivados. Num destes casos, que envolveu uma aluna do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros, só o MATA – Movimento Antitradição Académica considerou que a decisão judicial era um “escândalo”, o que parece indicar que nem todos os ramos da árvore associativa estão secos. Mas depois do caso do Meco (o que faziam estudantes de capa e batina, à meia-noite, à beira-mar?; a contemplar a lua?) não se produziu sequer uma ponta de reflexão entre associações académicas que pusesse em causa esta degradação civilizacional, a barbárie que os praxistas se orgulham de trazer impunemente até para a praça pública, desafiando o bom-senso e o respeito devido aos outros cidadãos.

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