Capa do livro “Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta” (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011. «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»
Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de “Arte Poética V”, in “Ilhas”, Lisboa: Texto Editora, 1989)
Açores
Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in “O Nome das Coisas”, Lisboa: Moraes Editores, 1977; “Obra Poética III”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 234-236)
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD “Herdeiros da Maresia”, Carlos Alberto Moniz, 2003)
Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés-a-lés
Prado agricultura
É de terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
É como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e de clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés-a-lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
* Carlos Alberto Moniz – voz
Ricardo Dias – acordeão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Davide Alfano – violoncelo
Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros
Navegavam sem o mapa que faziam
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (poema V do ciclo “As Ilhas”, in “Navegações”, Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983; “Obra Poética III”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 256)
Recitado por Maria Barroso* (in CD “Abraço Musical Entre Dois Povos: 500 Anos, Uma História Comum”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/Sondex, 2000)
Navegavam sem o mapa que faziam
(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)
Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável
Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente