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CONTOS & CRÓNICAS – Deus é como a polícia, nunca aparece quando é preciso – por Carlos Loures

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Por essa altura, tínhamos começado a jogar xadrez. Durante as semanas da minha reclusão, a minha mãe, furando o bloqueio imposto pela autoridade paterna e procurando orientar-me para tarefas positivas, como ela costumava dizer, ensinara-me a mexer as peças. Mal pude, transmiti este novo saber aos meus dois amigos. O Manuel entendeu logo a essência do jogo. O Abílio também, mas, para além de concepções estratégicas bizarras e de interpretações pessoais da cínica de Napoleão, tentava também fazer batota, empurrando uma peça com os dedos e outras, sub-repticiamente, com uma unha que, para o efeito, foi deixando crescer. Foi, portanto, durante o desenrolar de uma partida que expliquei aos meus sócios as linhas essenciais da nova ideia. Na altura, a peseta valia bastante menos do que o escudo, cerca de metade. Portanto, grosso modo, com cada escudo conseguiríamos cerca de vinte moedas de dez cêntimos. Uma autêntica mina. Ficaram entusiasmados.

            O problema era conseguir as moedas, pois na cidade não havia casas de câmbio. Matutando, o Manuel arranjou uma solução: «o senhor padre Artur resolve-nos o problema», disse. A tia (tia-avó) era muito devota, muito ligada à igreja e às actividades da paróquia. O seu maior desejo era que o Manuel entrasse para o seminário, o que até essa altura conseguira ser evitado. O padre Artur era visita da casa, pois tinha sempre assuntos a tratar com a velhota. Como ele ia quase todas as semanas a Lisboa, bastava conceber uma endrómina e pedir-lhe que comprasse as moedas. Nem foi muito difícil. O Manuel disse à tia, numa altura em que lá estava o padre, que ele e outros colegas do liceu (não falou em nós, pois a nossa credibilidade naquela casa andava muito por baixo) queriam construir jogos de damas para oferecer aos velhinhos do asilo. Os tabuleiros já estavam feitos (mostrou um exemplar em cartão, dobrável, fabricado pela Majora, que tínhamos comprado na Papelaria Bijou e retocado a guache para dar um ar mais artesanal). O problema eram as pedras, pois não dispunham de torno e em madeira, com a serra de rodear, nunca mais ficaria pronta a quantidade de jogos que queriam oferecer. Tinham tido a ideia de utilizar moedas, forrando-as de cartolina e pintando umas de branco e outras de negro (mostrou dois espécimes laboriosamente executados por nós). Eram moedas de cinco tostões, disse, mas ficava muito caro – vinte e quatro peças cada jogo, dava doze escudos, uma fortuna. Ele tinha ouvido dizer que havia umas moedas espanholas, de dez cêntimos, boas para aquele fim. E, com pouco mais de um escudo, completava-se um jogo. O problema é que só num cambista se podia encontrar as moedas. Sensibilizados, os velhotes trocaram comovidos olhares cúmplices. O padre, dando estalos de comoção com a placa dentária, ainda disse que não era legal usar dinheiro para aquele fim. Mas tendo em conta a boa intenção… E lá recebeu os trinta e tal escudos que, entre os três, tínhamos reunido. Eu e o Abílio começávamos a ficar impacientes com a morosidade do processo. Chegámos mesmo a colocar a hipótese de desistir. O Manuel acalmou-nos, «a ideia não tem pressa», argumentou, citando-nos um Hegel de cuja existência na altura nem suspeitávamos. De facto, passados dias, apareceu-nos com um saco de chita repleto de moedas que o padre trouxera.

            A altura não podia ser mais oportuna. Foi pelo período dos santos populares e num descampado da cidade, junto ao campo da bola, estava montada uma espécie de feira, com circo, carrosséis, carros de choque, castelo fantasma, roda gigante, barracas de tirinhos e de comes e bebes. O trivial. Havia também, claro, um pavilhão com matraquilhos explorado por uma família cigana. A operação arrancou num sábado à tarde. Jogámos mais de trinta jogos antes de nos cansarmos. No domingo, depois do almoço, preparámo-nos para prosseguir o regabofe. Porém, logo que metemos a primeira moeda, o cigano que estava de guarda ao pavilhão não nos deixou puxar a maçaneta que fazia cair as bolas e abriu o jogo. Lá estava a maldita moeda espanhola metida no mecanismo. Apareceu imediatamente o resto da tribo, tirando-nos qualquer veleidade de fuga. Não nos deixaram sair. «Estamos lixados. Valha-nos Deus», murmurou o Abílio. E, em voz muito baixa, com esperanças profiláticas em qualquer milagre instantâneo, começou apressadamente a rezar um padre-nosso.

            – Não percas tempo, Deus é como a polícia, nunca aparece quando é preciso – avisou-o, com um suspiro desalentado, o Manuel.

            Porém, desta vez, a polícia até apareceu rapidamente, embora na nossa opinião não fizesse ali falta nenhuma. Os ciganos tinham telefonado para o posto da GNR e, passados minutos, chegou o pai do Abílio e mais dois guardas. Era um homem grande, de gestos calmos e voz pausada. Fingiu não conhecer o filho ou qualquer de nós e perguntou ao cigano: «Então são estes os meliantes?» Fez tudo conforme as regras, identificou-nos, revistou-nos, encontrando-nos nos bolsos doses industriais de moedas de alumínio. Os ciganos foram buscar as moedas da véspera, parecendo-nos que tinham acrescentado muitas às que realmente tínhamos usado. Mas nem alegámos isso. A nossa posição ali era a de vermes obscuros, sem direito fosse ao que fosse e muito menos a defender-nos. Tudo o que disséssemos só podia piorar a situação. Os feirantes queriam ser indemnizados – por cada moeda espanhola uma moeda portuguesa de cinquenta centavos: nem mais, nem menos. «É justo», sentenciou o pai do Abílio. Sempre com uma serenidade de mau agoiro, tranquilizou os nómadas: iam receber o seu dinheiro. E levou-nos para o posto. Foi aí que o meu pai e a tia do Manuel nos foram buscar. O Abílio foi logo atendido ali. Num calabouço deserto, o pai deu-lhe o tratamento habitual.

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