CONTOS & CRÓNICAS – ” Sam Spade, finalmente” – por Carlos Loures

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Foi quando centrámos as nossas actividades ilegais na Papelaria Bijou, onde se vendiam os livros. Íamos lá comprar os manuais escolares, os cadernos, os lápis e restante material. Enquanto dois de nós ocupávamos a empregada, pedindo informações perguntando preços ou comprando qualquer insignificância, o terceiro, que vinha equipado com um braçado de livros e papéis, pousava-os sobre a bancada onde estavam os livros policiais, que eram o nosso alvo. Quando saíamos, ele voltava a pegar no que trouxera, trazendo sempre por baixo um livro e às vezes dois. «É como se faz agora em Paris, nas livrarias de Saint-Germain-des-Prés», assegurou-nos o Manuel, que introduzira o método. Além desta forma emocionante de ler, continuávamos a jogar xadrez. O que agora nos fascinava ainda mais neste jogo era o termos sabido, pela leitura de um artigo numa revista, que o nosso ídolo Humphrey Bogart era também um xadrezista de elevada qualidade. Durante a Grande Depressão, desempregado, ficava diante de um tabuleiro de xadrez, numa galeria comercial, à disposição de quem lhe quisesse pagar 50 cêntimos por uma partida. Por isso, jogar xadrez deixara de ser para nós uma forma de matar o tempo, passara a ser um verdadeiro acto de culto. O Abílio até se esforçava por não tentar mudar a seu favor a posição das peças quando o parceiro se distraía. A batota, que antes tanto o entusiasmava, constituía agora um sacrilégio. Claro, e abro aqui outro alçapão na narrativa, para dizer que muito mais tarde vim a sofrer a desilusão de saber que Bogart, supostamente um actor progressista, se portara muito mal durante o negro período do maccartysmo, mais conhecido pela «caça às bruxas» ou, na versão oficial, de «luta contra as actividades anti americanas». Quando fiz essa triste descoberta já os meus amigos não estavam na cidade. Imagino que terão chegado pelos seus meios ao conhecimento do mau comportamento do nosso ídolo e que terão sofrido desilusão equivalente à minha.   Na realidade, após os exames do quinto ano, o punho cruel e inflexível do destino abateu-se sobre a nossa sociedade secreta – o gangue foi desmantelado: a tia do Manuel conseguiu finalmente, com o auxílio do padre Artur, convencer os pais do rapaz a forçar a sua entrada imediata no seminário; o pai do Abílio foi transferido para a capital do distrito e, naturalmente, levou a família consigo. O sexto ano, sem os meus dois companheiros do crime, foi um verdadeiro pesadelo. A cidade que até então chegara, nos melhores momentos, a assumir contornos nova-iorquinos, sem eles parecia-me um deserto, uma parvalheira, um estúpido lugar vazio onde já nada fazia sentido.

            Acabado o liceu, também eu saí da terra, pois o meu pai lá conseguiu ser promovido e regressar a um lugar melhor numa repartição em Lisboa. O rasto dos meus amigos foi-se perdendo sob espessas camadas sedimentares do tempo e da distância. As informações, dispersas e casuais, que sobre eles fui obtendo apenas me permitem conhecer dados muito superficiais sobre os seus percursos. O Manuel é padre. Transformou-se num emérito perito em arte sacra e, segundo me disseram, é a ele que o bispo encarrega de avaliar e inventariar o património artístico da diocese. E tal como o jornal escolar nos permitiu fugir à estúpida disciplina militaróide, será que esta especialização foi a maneira engenhosa, habilidosa, que encontrou para não ter de suportar as agruras, a chateza rotineira da vida sacerdotal? Não sei se ainda pensa que Deus nunca aparece quando é preciso ou se contornou essa pertinente objecção à omnipresença da divindade com as consabidas tautologias e chatos sofismas teológicos. O Abílio formou-se em Direito e é actualmente inspector da Judiciária. Com algum orgulho, li há anos num jornal diário o seu nome ligado à descoberta e desmantelamento de uma importante rede de tráfico de droga. Mais recentemente, apareceu na televisão a anunciar a prisão de uma quadrilha de pedófilos. Oxalá não se tenha esquecido de que a justiça e a lei nem sempre são compatíveis. No que me diz respeito, por ser totalmente irrelevante, poupo-vos à descrição daquilo em que a vida me transformou – direi só que, ainda que respeitável, é prosaica e descolorida a minha rotineira existência.

            Na vida real, o happy ending nunca existe. Basta que não esqueçamos que a vida, decorra como decorrer, é sempre uma estrada, mais ou menos longa, mais ou menos acidentada e dolorosa, para a morte. E não me venham cá dizer que há mortes felizes. Por isso, o ficcionista que quiser dar um remate afortunado à sua narrativa só pode fazer uma coisa: seccionar o percurso das suas personagens, suspendê-las no tempo, escolher um momento em que tudo esteja a correr bem e, zás, dar a tesourada e terminar a história antes que seja demasiado tarde. É talvez por isso que, quando às vezes recordo o grupo, é sempre naquele quente crepúsculo de Verão. Se algum dia me desse ao trabalho de escrever uma história sobre o nosso gangue, terminá-la-ia nessa tarde mágica e desta forma – as sombras caem sobre o pinhal numa sinfonia de tons vermelhos. Nós, indiferentes às garras impiedosas do futuro, continuamos a fumar placidamente em silêncio. Sam Spade, cínico, duro e implacável, sempre do lado contrário àquele em que a lei estiver, para poder estar ao lado da justiça, fita-nos irónico, com a sobrancelha erguida de Bogart, adivinhando talvez os nossos destinos. Porém, somos ainda heróis. É, pois, o momento mais conveniente para acabar a história. Em silêncio, fumamos os cigarros kentucky e contamos mentalmente as nossas cicatrizes.

            Como velhos guerreiros.

1 Comment

  1. As ilusões e até as transgressões e os pequenos crimes dos jovens têm um fervor e um élan que nos comovem.
    Belíssimo conto, Carlos Loures.
    Parabéns!

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