A cara de vingativo alívio/satisfação com que o ex-secretário-geral do PS saiu de cena diz bem quanto o poder – todo o poder – é uma dourada prisão/tortura e, ao mesmo tempo, uma irresistível sedução. A sedução dura apenas, até a seduzida, o seduzido lhe cair nas garras. Logo depois, vêm as agruras de toda a ordem, em devorador crescendo. Os aplausos ao novo vencedor são um misto de inveja e de vingança. Apagados os holofotes da vitória/entronização, todos regressam a suas casas, e o vencedor fica só. O dia da vitória/ entronização é o primeiro dia da sua completa solidão. Nunca mais conhecerá amigos, nem familiares, que o poder é, de sua natureza, estéril e, mais do que estéril, assassino. Viverá rodeado de cortesãos e acompanhantes de luxo, elas ou eles, conforme as suas tendências sexuais. A luta pelo poder só é arrebatadora, enquanto dura. O vencedor é o maior dos desgraçados que, para seu mal, nunca chega a reconhecer-se. A cara de vingativo alívio/satisfação com que António José Seguro deixou, às pressas, o cargo de secretário-geral do PS para o seu rival António Costa, é duma cruel e sádica eloquência. Pudemos vê-lo, depois, regressar a casa, teatralmente, acompanhado da mulher e das filhas. Só quando se viu derrotado e, face à inequívoca expressão dos resultados das primárias, finalmente, percebeu que até muitos daqueles que andaram com ele, de comício em comício e de jantar em jantar, correram, depois, a votar no seu rival de partido – é por isso que o voto é secreto – é que viu o ninho de víboras em que havia vivido até àquela noite. Faltou-lhe, porém, nesta hora de saída, dar um passo mais, para garantir o seu definitivo regresso à condição de simples ser humano feliz: deixar definitivamente o PS e, com ele, o planeta poder. Manter-se como “militante de base”, significa que vai apenas gozar umas curtas férias com a família. O poder mantém-se dentro dele, como um demónio, a devorar-lhe a alma. Continuará, por isso, na penumbra, a liderar uma corrente segurista contra Costa. E o que deveria ser para ele definitiva libertação do poder, é o seu suplício de Tântalo. Maldito poder!
30 Setº 2014


