CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR TOMA UMA DECISÃO – por João Machado
carlosloures
Escrevo-lhe para o informar de que estou um pouco melindrado consigo. Não me quer ajudar a decidir com quem falo primeiro sobre o chá, se com a minha mãe, se com a Maria da Luz. Diz-me que acha que, com a minha idade, tenho que me habituar a decidir o que me diz directamente respeito. Mas não está a perceber. Se tomo uma decisão e magoo a minha mãe ou a Maria da Luz se zanga comigo, fico cheio de problemas. Assim se o senhor me der um conselho e não correr tudo bem, sempre fico mais aliviado. A si não o afectará, por não vive com a Heloísa, nem conhece a Maria da Luz. Seria, como dizem, um conselho de uma pessoa não comprometida ou não envolvida no assunto. Ainda por cima este é tão complicado. Por favor, não me diga que não sou capaz de assumir responsabilidades.
E imagine o que descobri hoje. Calcule que fui logo de manhã à faculdade para pagar as propinas. Felizmente que a minha mãe ontem me deu dinheiro. Tenho notado que ela anda mais abonada do que antigamente. Levantei-me cedo e ainda não eram dez horas quando cheguei à universidade. Na secretaria estava a D. Suzete Baião, uma senhora idosa que conheço há mais de vinte anos. Ainda está muito elegante, mas deixe que lhe diga que quando entrei para a faculdade (já lá vão mais de vinte e cinco anos) era uma verdadeira brasa. Agora está a ficar um pouco encurvada. Mas sempre muito eficiente, e com uma grande amabilidade. Entretanto o tempo passa e parece que a senhora está quase a ir para a reforma. Falamos sempre um bocadinho e, como hoje não estava mais ninguém para atender, demorámos mais do que o costume. Fez uma pergunta sacramental:
– Então, dr. Maurício, quando acaba essa curso?
Deixe que lhe conte que a D. Suzete trata todos os alunos sem excepção por dr., como se fossem já licenciados. Há mais de dez anos, já tinha alguma familiaridade com ela, e porque ficava um pouco engasgado com o tratamento, na medida em que já tinha percebido que ia levar muito tempo a conseguir tirar o canudo, atrevi-me a perguntar-lhe:
– Oh senhora D. Suzete, porque trata os estudantes por drs.? A gente ainda não acabou o curso…
Ela olhou para mim, levantou os óculos dos olhos, agarrou num maço de papéis que devia estar a incomodá-la, e foi colocá-lo na mesa do fundo. Voltou e olhou-me nos olhos. Até me engasguei. Deixou-me acabar de tossir, pôs a mão esquerda no meu braço, continuou a olhar-me a direito, e explicou-me, a meia voz:
– Está a ver a Dr.ª Marisa Martins, uma alta e forte, que trabalha no segundo andar, no Centro de Documentação Jurídica Fiscal?
– No CDJF? Uma alourada, que grita muito quando vamos lá fazer uma consulta?
– Essa mesmo. Mas havia de a ouvir gritar quando o outro dia o meu colega Simplício lhe foi pedir o certificado de curso. O pateta não sabia que a senhora, que está cá há quase vinte anos, e que dá ordens até ao reitor, só tem a quarta classe. Ainda por cima o Simplício nunca tinha falado com ela, e, não sei porquê, tratou-a por D. Marisa. Se o visse a fugir pela escada abaixo… Os gritos dela ouviam-se no rés-do-chão. Pusemos o problema ao chefe, que disse que não se podia fazer nada, que a senhora é afilhada do Duarte Magno, que tem três ministros na família, e, nas eleições, subsidia quatro partidos. Ficámos muito aborrecidos com a situação e resolvemos passar a tratar os estudantes por drs. Sempre têm mais habilitações que ela… Ao menos para entrarem na faculdade tiveram que acabar o liceu. Nunca houve uma excepção para eles…
Ainda hoje me rio com a lembrança. Mas voltando ao dia de hoje, respondi à D. Suzete:
– Espero acabar em Junho próximo.
– Que bom. Demorou, mas está a conseguir chegar lá.
– Sim. Este ano estou bastante optimista.
– Já vi que estuda com uma boa companhia. Aquela senhora, a dra. Maria da Luz, tem muita força de vontade. Vir tirar um curso depois dos quarenta anos não é para todos. É preciso ter vontade. E aos quarenta e cinco ir começar uma nova carreira. Ela parece que quer ir para advogada…
– Ela já vai nos quarenta e cinco?
– Quarenta e seis. Tem quase a sua idade.
Fiquei perplexo. Na Covilhã, a Maria da Luz tinha-me dito que tinha quarenta e um anos, quando lhe elogiei o seu belo aspecto. Mas pelo que dizia a D. Suzete teria mais cinco. Será que ela resolveu roubar na idade para melhor me seduzir? Resolvi deixar a conversa por ali.
Fui ter com a Maria da Luz à biblioteca. Depois fomos almoçar à cantina. É barato e come-se razoavelmente. Claro que não tentei esclarecer quantos anos ela realmente tem. Mas quando tomávamos o café ao balcão, resolvi-me a avançar com o assunto do lanche. Perguntei-lhe:
– Maria da Luz, achas que posso, um dia destes, convidar a minha mãe para tomar um café connosco?
– Claro que sim. Convida-a. Vamos com ela à esplanada ao pé do estádio.
Realmente foi fácil. A ver se esta noite falo com a Heloísa. Se calhar, o meu amigo tem razão.