CONTOS & CRÓNICAS – “MAURÍCIO VILAR FAZ UMA VIAGEM À BEIRA” – por João Machado

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Pois hoje escrevo-lhe em primeiro lugar para lhe dizer que aceitei o convite da Maria da Luz. Telefonei-lhe logo  no dia seguinte, como aliás estava combinado, a dar a resposta. E sucede que lhe envio esta mensagem de casa dela, daqui da Covilhã. Estou cá há dois dias.  Espero que não tenha estranhado quando viu o endereço do remetente. Desde já lhe agradeço todos os conselhos que me tem dado, bem como a paciência que tem tido comigo, com os meus desabafos e pedidos de apoio.

A Maria da Luz ficou muito satisfeita por eu ter aceitado o convite de vir visitá-la. Recebeu-me com tanta alegria! Os pais são muito amáveis, e estão a tratar-me muito bem. E eu também estou contente por ter vindo. Claro que a reacção favorável da minha mãe ajudou muito a que me decidisse. Ainda por cima pagou-me as viagens! Fiquei espantadíssimo por ela achar bem que aceitasse o convite da minha colega, e me incentivar tanto. De qualquer modo, isto aqui é muito agradável. Vou ficar cá até à próxima segunda-feira, e nesse dia a Maria da Luz e eu, vamos os dois para Lisboa. Temos estudado muito, e ontem fomos passear às Penhas da Saúde, na companhia dos papás dela.

Estou num quarto muito bom, com vista para a serra. A Maria da Luz já me fez duas visitas de surpresa, uma delas a meio da noite passada! Foi muito interessante, como deve calcular. Mas digo-lhe que estou a levar a preparação para o exame muito a sério, e a minha amiga é formidável. Trabalha imenso e já tem a matéria toda preparada. Estou muito optimista com o resultado.

Mas, para não variar, pôs-se-me hoje mais um problema, sobre o qual preciso que me ajude a pensar, para tentar chegar a uma conclusão sobre o que hei de fazer. Há pouco, quase ao fim da tarde (escrevo-lhe quase à hora do jantar), estava na sala a arrumar os papéis que a Maria da Luz e eu tínhamos deixado espalhados por cima da mesa e das cadeiras, e até do sofá (onde tínhamos disfrutado de um breve interlúdio, muito agradável, imediatamente antes do lanche), entra a mãe, a Senhora D. Belisária, mete conversa, muito agradável como sempre, e começa-me a perguntar pelos meus pais. Contei-lhe muitas coisas sobre a Heloísa, e disse-lhe que o meu pai morreu na emigração. Ficou muito impressionada, e imagine que até chorou. E disse-me ter muita vontade de conhecer a minha mãe. Que ela e o marido estão com intenções de ir a Lisboa antes do Natal, para estarem com a filha, que está muito sozinha lá na grande cidade. Ela afirmou que sabe que eu lhe tenho feito uma companhia muito agradável, mas anda muito preocupada desde que a Maria da Luz deixou a loja onde trabalhava. Acha muito bem que a filha estude, mas tem medo que ande com pessoas menos boas. Na loja, os donos eram gente conhecida, e ela  e o marido sabiam-na bem acompanhada. Agora, está todo o dia na faculdade, pode haver quem a desencaminhe. Tem sobretudo medo das drogas. Ficou muito tranquila quando me conheceu.

Pois eu é que não fiquei nada tranquilo. Embora a Heloísa me tenha dito para vir visitar a Maria da Luz e os seus amáveis pais, pago a viagem e tudo, não acredito nada que esteja interessada em falar com a D. Belisária, o senhor Tructesindo (é o marido, o pai da Maria da Luz) e mesmo com a própria filha deles. E se lhe palpita que querem mais alguma coisa, tipo levarem-lhe o Mauricinho, mesmo que continue a viver com a simpática Luzinha (é como a família lhe chama) em Lisboa, mas noutro sítio que não a rua de Santo Ambrósio, ai, ai, temos o caldo entornado. E também não me palpita que  aquele estranho encontro em Cascais, ou qualquer outro incidente, a tenha alterado assim tão profundamente sobre este assunto. Mas desde já lhe digo, meu prezado amigo, que respondi à D. Belisária com toda a compostura, e lhe disse mesmo que era uma óptima ideia e que a minha mãe havia de ficar encantada. Vai-me dizer com certeza que, para já, tenho de ter, antes de mais nada, uma conversa muito grande com a Maria da Luz, que embora os pais a tratem como a uma menina, ela já vai nos quarenta anos (quarenta e um, disse-me a noite passada, a propósito de uns elogios que lhe fiz sobre o ar juvenil do seu corpinho), aparenta saber muito bem o que faz e nunca falou até à data numa apresentação à minha mãe. Aqui entre nós duvido mesmo que a queira para sogra. Esta minha última observação peço-lhe encarecidamente que fique rigorosamente entre nós.

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