Pois caro amigo, realmente parece que a vida me está a correr um pouco melhor. Já sei, vai dizer que não está um pouco melhor, está muito melhor. Que a Maria da Luz é muito simpática, e finalmente arranjei uma rapariga com que a Heloísa simpatiza. E, também, que tenho o curso quase no fim. Mas sabe uma coisa? Hoje, como em todos os dias da semana (sobretudo desde que comecei a dar-me com a Maria da Luz)fui à faculdade. Estivemos a estudar para outra frequência, que vamos ter ainda antes do Natal. Estamos muito bem preparados. Vai correr bem, vamos tirar boa nota e depois? Não pense que estou preocupado com o problema do emprego a seguir à conclusão do curso. Acredite que não. A Maria da Luz já me disse que quer abrir um escritório depois de acabar o curso. E que está a contar comigo para ir trabalhar com ela. Casamento? Não, nunca me falou nisso. Ao contrário da Natália, que me falou nisso umas poucas de vezes, para depois me vir a dizer que eu sou casado com a Heloísa. E a seguir acabar com o nosso namoro. É verdade que nunca lhe disse que não quero deixar a minha mãe, a rua de Santo Ambrósio, a pastelaria Esplendorosa e o resto. Não tenho mesmo vontade nenhuma de o fazer. Porque será? Por não querer trabalhar, e me sentir muito bem debaixo das saias da mãe, como dizem por aí? Ou por ter um bloqueio, como diz a Otacília (ou Otilinda), a minha vizinha assistente social reformada? Sabe, o que eu realmente não quero é ter maçadas. Estou bem assim, com a Heloísa a tomar conta de mim. Ela gosta, e eu não tenho de me esforçar muito. Sair de casa, ter de aturar uma mulher a que não estou habituado, viver com crianças, muito giras quando são dos outros, e por aí a fora? E tanto trabalho que se tem… Nunca tinha desabafado assim consigo, pois não? Não conte a ninguém que eu lhe disse isto, por favor. Mas porque será que ela simpatizou tanto com a Maria da Luz? Embirrou tanto com a Natália, que eu nunca consegui levá-la lá a casa.
A noite passada pus-me a pensar no Natal, que é já daqui a três semanas. Se calhar devia comprar uma prenda para a Maria da Luz, não acha? À Heloísa não costumo comprar prendas. Uma vez, teria eu uns treze anos, também era Natal, tinha um dinheirito (acho que foi a D. Henriqueta quem mo deu), comprei-lhe um jarrinho que vi numa loja do Martim Moniz. Quando lho dei ela olhou para mim com um ar que não percebi se tinha gostado ou não. Pegou no jarrinho, deu-me um beijo, e depois disse-me para não voltar a comprar prendas, nem para ela, nem para ninguém, que não tínhamos dinheiro.Mas deixe-me dizer-lhe que ainda há pouco tempo vi o jarrinho no quarto da minha mãe.
Não quero aborrecê-lo com histórias tristes. Mas a minha preocupação é esta: porque é que a minha mãe e a Maria da Luz se dão tão bem? Vai responder-me com uma pergunta, já sei: então, como é? Estava com tantos problemas com receio que se dessem mal, e como afinal se dão bem, preocupado fica. Você é um tipo muito complicado, essa é que é a verdade. Desculpe, sei que lhe devo muito, tem tido muita paciência comigo, mas não está a ser justo comigo. Eu já estou habituado a que não me entendam, mas preciso que preste atenção ao seguinte.
Hoje à tarde fui com a Maria da Luz a casa dela, como aliás fazemos normalmente, depois de sairmos da faculdade. São momentos muito agradáveis, como julgo que já lhe referi, e até me disse umas duas vezes que sou um tipo com sorte. Talvez tenha razão, admito que tive muita sorte em conhecer a Maria da Luz, e ela simpatizar tanto comigo. Mas hoje aconteceu que, após uns momentos muito agradáveis no quarto dela, deixei-me dormitar um pouco. Acordei de repente e não vi a minha amiga. Levantei-me, vesti-me e fui procurá-la. Ela tem uma casa bastante grande, que lhe deixou uma tia avó, segundo me contou já há algum tempo. Encontrei-a numa sala ao fundo, a fazer uns embrulhos que de seguida colocava em cima de uma mesa grande, onde já se alinhavam outros embrulhos. Ela explicou-me que eram prendas que ela ia preparando durante todo o ano, para estarem prontas no Natal. Algumas tinham já o nome do destinatário escrito. Contei-lhe que ontem também tinha estado a pensar em comprar prendas para oferecer, sem mencionar, claro, que ela era a destinatária. Ela sorriu e disse-me que havíamos de ir às compras amanhã ou outro dia. Fiquei um pouco perplexo, mas concordei. Assim já sabe, tenho de ir às compras. Estou decidido. Vou ter de dizer à Heloísa. Espero que ela não se lembre do que me disse quando lhe ofereci o jarrinho. E vou precisar de dinheiro. Vai ser difícil. E que prenda hei de escolher para a Maria da Luz? Será que a minha mãe vai gostar? O que acha, meu amigo?