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DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – UMA SÍNTESE DA HISTÓRIA À VOLTA DAS CAPITULAÇÕES FACE AOS MERCADOS: UMA INTRODUÇÃO AO ARTIGO DE JEAN-LUC GRÉAU, por JÚLIO MARQUES MOTA

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Uma síntese da história à volta das capitulações face aos mercados: uma introdução ao artigo de Jean-Luc Gréau,

Um texto que toma como base o muito bom livro de Robert Salais, Le viol de l’Europe, PUF, 2013.

Parte II

(continuação)

Lembremos então a sequência: com a liberalização dos mercados financeiros deu-se a supressão da barreira entre banco de depósitos e bancos de investimento com vantagem para bancos do tipo universal, ou até dos complexos bancos e seguros: criação fora do balanço ( escapando portanto a todos os controlos existentes) de veículos especializados na especulação; idas aos mercados para financiar estes veículos; criação de patamares sofisticados de derivados de créditos permitindo libertar liquidez adicional: Nada disto foi encarado seria ou nem atempadamente por nenhum banco Central ( eu diria que não queriam ver, o que se pode provar pelas actas de reuniões com Alain Greenspan) sobretudo o facto de que os bancos que faziam a titularização para se libertarem dos riscos próprios, compravam depois, por diversos veículos especulativos produtos da mesma natureza que os que tinham vendido, produtos estes emitidos por outras instituições financeiras e assim recuperavam e acumulavam riscos sobre riscos que eram dos concorrentes! A sede de liquidez levou à ausência total de liquidez em todo o sistema, porque cada vez que a liquidez era recuperada, como se explicou, era imediatamente re-investida em produtos especulativos semelhantes. E faziam-no cada vez mais no fim do processo, nos mercados descentralizados, isto é, fora da Bolsa, com tomadas de posição a prazo, de venda ou de compra. no decorrer dos anos 2000 os riscos de liquidez estavam de tal forma cruzados entre as diversas instituições financeiras que se tinha criado uma terrível situação de risco sistémico que ameaçava afundar o sistema financeiro como um todo. As autoridades responsáveis pela liquidação de Merrill Lynch afirmou em 2008 que seria necessário mais de dez anos para a sua equipa deslindar todas as ligações deste tipo.

Os bancos centrais inundam sempre o sistema com liquidez quase que gratuita, a totativa funciona sempre bem desde que a ponha a funcionar. Mas a qualidade dos activos adquiridos em contrapartida não é assegurada e torna-se duvidosa. O balanço dos bancos centrais degradam-se, a estabilidade do valor das moedas e a confiança nelas diminuem. Estamos pois a andar à volta, num círculo vicioso. Os bancos centrais adquiriram estruturalmente, na verdade, a posição de refinanciadores em última instância. Esta posição não pode ser desmantelada, porque os bancos centrais permanecem sempre como refinanciadores em última instância. Eles acabam por conceder créditos aa eles mesmos, a garantia final do reembolso assenta pois no vazio. O BCE entrado no jogo é por esta mesma razão o mais vulnerável de todos. Nem a sua promessa de inundar o mercado com liquidez e de tanta quanto for necessário para evitar o rebentar do euro, nem a transferência da dívida bancária para os Estados regulou o problema. O apoio directo aos Estados sendo proibido pelo seu próprio estatuto, o BCE já com Mário Draghi utiliza um subterfúgio de que se pode questionar a legalidade. O BCE obtém liquidez a uma taxa de juro quase nula para ceder aos bancos e com esta liquidez assim obtida os bancos privados compram a dívida pública que a seguir revendem ao BCE e aos bancos centrais nacionais, através do mercado secundário [obtendo aqueles bancos pelo meio razoáveis taxas de juro, entre o que pagam pelo dinheiro emprestado pelo BCE e o que recebem dos Estados, que bem poderíamos chamar de intermediação por ajudar o BCE a contornar os estatutos.] As contas do BCE sobrecarregam-se de títulos da dívida pública, [que directamente não podem comprar,] que só valem pelo seu  valor nominal enquanto não forem reestruturadas. Tal como o barão de Munchhausen que voava no vazio pelo facto de puxar pelos seus próprios cabelos, o BCE mantém-se acima do vazio fazendo, segundo o termo consagrado em economia, bootstrapping, ou seja “a querer levantar-se puxando pelas alças das botas” que está a calçar, o que tem o mesmo sentido que a lenda alemã. Mas nós estamos na realidade e não a falar de lendas.

(…)

O poder dos bancos centrais tornou-se uma ficção. Na prática, os bancos e os mercados financeiros são eles que mandam no baile e na música que nestes é dançada, podendo   impor aos bancos centrais a política que estes devem fazer aplicar. Mas tudo isto é uma ficção partilhada que todos têm interesse em manter. O “acordo” entre eles é de controlo mínimo dos bancos centrais  para uma liberdade máxima dos bancos privados. Assim se perpetua uma convenção de irresponsabilidade no seio da finança. Só o poder político, o poder exercido pelos povos e pelos Estados está em condições de cortar este circulo vicioso. Povos e Estados deviam cooperar para, como em 1944, tomarem as rédeas da sociedade, dos mercados. Se o ousassem fazer, descobririam que o rei vai nu. Se este ainda mete medo, é porque dá a impressão de que detém as rédeas do poder, da condução da massa dos seus subservientes e em que se ele a larga, esta massa saltará sobre todos nós; enquanto que se esta massa permanece tranquila, é simplesmente porque ela o quer, e lembra assim ao rei que este tem interesse em comportar-se como deve ser e em  bem cuidar dela.

(…)

A liberalização dos movimentos de capitais é uma peça chave na globalização. A OCDE redigiu em 1961 um Código voluntário da liberalização dos movimentos de capitais, mas que, contudo, não rompia com as linhas de Bretton Woods. Per Jacobsson, director do FMI desde 1956, (e criador com Hayek da Sociedade Mont Pélerin) consegue em 1961 pôr em causa, o artigo 6.1 dos estatutos do FMI. Este artigo foi reescrito em 1969 para permitir ao FMI utilizarem-se os seus financiamentos para compensar os movimentos de todos os capitais, mesmo os especulativos. Apoio total portanto À LIBERDADE dos  movimentos de capitais.

Nestes tempos, face à subida rápida do défice da balança de pagamentos, a defesa do dólar como moeda mundial preocupava as autoridades americanas. Economistas e operadores de mercados duvidavam da convertibilidade do dólar em ouro, a dívida externa acumulada começava largamente a ultrapassar o valor do stock posto à guarda en Fort Knox e em que a nada disso era estranha a guerra do Vietname.  Uma escolha estratégica vai-se fazendo pouco a pouco que fez a base onde assentou a liberalização: reajustar a política interna e externa americana de modo a reduzir o nível de vida e regressar ao equilíbrio ou, na ausência de qualquer ajustamento, assegurar a longo prazo por todos os meios possíveis,  o financiamento do modo de vida, da organização financeira e da estratégia da hegemonia americana. Há duas maneiras de continuar a financiar-se: manter os dólares no país ( via controlo do movimento de capitais, especialmente dos especulativos) ou atraír a vinda de dólares para o país ( que se acumulavam no exterior, tendo em conta a dívida) para que estes se reinvistam nos Estados Unidos. A segunda maneira foi a que se tem imposto desder os anos 70 e Barack Obama faz exactamente o mesmo que os Presidentes anteriores: os dólares no estrangeiro são reinvestidos massivamente no financiamento da dívida americana. Para que isso seja possível, a liberalização financeira é essencial. Wall Street e os eus bancos, apoiados sobre o poderio económico, financeiro e político dos Estados Unidos souberam e puderam construir um mercado financeiro mundial cuja moeda central é o dólar, através do qual o financiamento dos Estados Unidos continua a ser assegurado. Exactamente como o BCE,  o  FED faz  do bootstrapping, parece querer estar sustentado  no ar e com o dólar também. O FMI resiste à sua maneira até à mudança de estatutos em 1976. O seu novo director-geral, Joahnnes Witteveen, um holandês próximo do economista Tinbergen, propõe em 1974 que os petrodólares obtidos pela OPEP, na sequência do choque petrolífero, sejam reciclados na economia mundial através dos canais do FMI para permitir um processo prudente e equitativo. Esta proposição foi calorosamente defendida pelos governos europeus. Os americanos recusaram, preferindo a reciclagem a ser feita pelos mercados financeiros internacionais. Witteveen reafirma a sua proposição em 1975 sugerindo a criação de uma linha de crédito do FMI sustentada pelos petrodólares dirigida às economias desenvolvidas. Esta proposta tinha o apoio da Arábia Saudita e dos japoneses, mas foi recusada pelos americanos.

(continua)

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Para ler a Parte I  de  “Uma síntese da história à volta das capitulações face aos mercados: uma introdução ao artigo de Jean-Luc Gréau”, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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