DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – UMA SÍNTESE DA HISTÓRIA À VOLTA DAS CAPITULAÇÕES FACE AOS MERCADOS: UMA INTRODUÇÃO AO ARTIGO DE JEAN-LUC GRÉAU, por JÚLIO MARQUES MOTA

Falareconomia1 

Uma síntese da história à volta das capitulações face aos mercados: uma introdução ao artigo de Jean-Luc Gréau,

 

Um texto que toma como base o muito bom livro de Robert Salais, Le viol de l’Europe, PUF, 2013.

Parte I

O recurso às “politicas estruturais” de desregulação do mercado de trabalho é, na verdade, a confissão do falhanço dos instrumentos da política monetária. A esta confissão de impotência respondeu um sistema de expectativas mútuas perversas entre os bancos centrais e o sistema financeiro. Os actores do sistema financeiro consideram que são um guichet aberto ao banco central no qual podem levantar o dinheiro que quiserem e à sua vontade. Os maiores deles, os demasiados grandes para se deixarem falir, utilizam o medo do risco sistémico (se eu vou abaixo, todos os outros também vão) para conseguirem sempre a liquidez que entenderem. O banco central justifica o seu papel pela sua função de refinanciador em última instância. O principio de refinanciador em última instância foi enunciado pela primeira vez em 1873 pelo economista britânico Walter Bagehot, seguindo nisso as ideias do seu precursor Henri Thornton. A ideia é que em caso de crise de liquidez o banco central deve emprestar a todo e qualquer banco em dificuldade que pode contudo oferecer como contrapartida (como colateral diz-se hoje) “papel” de qualidade, papel cujo reembolso é seguro. Um tal empréstimo é dito de “última instância” porque todas as outras fontes de financiamento estão já  fechadas para o banco em dificuldade. O problema é que este princípio é hoje instrumentalizado: o que deveria ser a excepção (ajudar um banco em dificuldade) tornou-se actualmente a regra. Os bancos centrais tornaram-se, por vontade própria ou por força das circunstâncias que lhe são estranhas, os criados dos mercados financeiros. A União bancária prevista, pondo em contacto os grandes bancos directamente com o BCE, só virá agravar ainda mais a situação.

O mecanismo é simples. Se a intervenção do banco central de excepcional passa a ser considerada como a prática normal, corrente, os bancos esperam então, façam o que fizerem, que serão sempre sustentados em caso de dificuldade e abandonarão todos os princípios de precaução, o que, precisamente, lhes cria dificuldades. Uma restruturação, a ajuda pública ou a entrada temporária do Estado no capital,  não os levarão a ter mais cautela, pois terão sempre a ideia de que nunca poderão ir à falência. Começarão a lançar-se ou a relançar-se em operações ou em inovações, não ainda controladas ou nem controláveis sequer, de risco potencial muito elevado. Um círculo vicioso auto-referencial se desenvolve desta maneira e os créditos do banco central de última instância em vez de cortarem o passo neste caminho suicida alimentam ainda mais a corrida para o abismo. É a situação em que nos encontramos hoje. É esta a base da crítica, pertinente acrescente-se, que o Bundesbank faz à política de Mario Draghi pela sua política de alimentar o sistema em liquidez e sem limites.

Num tal círculo vicioso, o banco central perdeu todo e qualquer meio de controle para arrefecer o sistema, travar o crescimento anárquico da massa monetária, bloquear  a especulação e fazer com que os volumes de crédito disponibilizados se dirijam para a economia real. As suas tentativas são contornadas (por exemplo pelo desenvolvimento de uma zona cinzenta fora de toda a regulação) ou reduzida a nada pela inovação financeira (titularização, derivados de crédito, etc). As únicas vias de recurso seriam as de regular drasticamente a inovação financeira, de separar de novo e totalmente os bancos ditos de depósito e os bancos de investimento, de nacionalizar, pelo menos parcialmente, para poder reformar em profundidade os comportamentos dos banqueiros, de democratizar as decisões de investimento produtivo e de acesso ao crédito, medidas ou práticas que os meios financeiros recusam e que os governos não têm nem nenhuma ideia nem muito menos pensar colocar em prática. Daí os remédios que nós conhecemos: transferência de dívida bancária e dos activos tóxicos para os Estados e em paralelo a exigência de reformas estruturais sobre o Estado, sobre a sociedade.

(…)

Já nos anos 70, os bancos tinham-se praticamente libertado das condicionantes para concederem créditos, condicionantes que os bancos centrais lhes tentavam impor. Os bancos corriam à procuram de clientes para que neles fizessem depósitos (o dinheiro dos clientes interessa-nos) sabendo que com os depósitos se fazem créditos que farão depois outros depósitos que farão outros créditos numa espécie de bola de neve que à medida que vai rolando vai engrossando. Enquanto que os bancos antigos ditos de velho papá guardavam o dinheiro disponível para as situações de dificuldade (para poderem reembolsar os seus clientes quando inquietos pela evolução das economias) os bancos modernos inversamente ultrapassaram-nos com os seus investimentos altamente rentáveis, especulativos. A contrapartida é que estes bancos modernos imobilizam esta liquidez não a podendo facilmente recuperar em situações de urgência. Esta caça aos gambosinos (no original dahut) desemboca  no mercado interbancário. Neste mercado, os bancos com excedentes de tesouraria emprestam-nos aos outros bancos que estão com necessidade de liquidez de curto prazo. A corrida atrás de lucros pode pois continuar. Este mercado tem hoje uma grande dimensão e foi precisamente nele, por surpresa geral, que se iniciou o rebentar da crise, em 2007. Desde então este mercado funciona muito mal, os bancos quase que não se emprestam entre si, em que cada um conhece a sua situação financeira mas tem medo da situação financeira do vizinho, suspeitando de que os outros escondem as suas dificuldades.

(Mas) os bancos centrais acreditavam no seu poder de controle e a esta crença se a se juntou a crença na eficiência nos mercados.

Ávidos de crescimento e de lucros os bancos de depósito puseram-se a concorrerem contra os bancos de investimento nos mercados financeiros à procura de dinheiro, o que lhes permitiu contornar os controlos das autoridades monetárias. No final dos anos 80, os bancos inventaram a titularização, o meio infalível, acreditavam eles, de conseguirem obter liquidez sem limite e de estender assim, sem limite igualmente, as suas possibilidades de concessão de créditos. A titularização será seguida, A titularização consiste em revender sobre o mercado a um preço que satisfaça os compradores interessados pacotes de créditos que ao longo do tempo serão reembolsados. Típico disto: a venda de hipotecas a veículos especiais que os transformavam em títulos tendo como garantias os rendimentos gerados pelas hipotecas. Foi assim que se gerou o mercado dos subprime, com os seus CDO e os CDO ao quadrado. Neste exemplo o banco liberta assim liquidez, o valor da hipoteca que estava imobilizado e que é recuperado ao ser vendido ao veículo especial criado para o efeito. Passa a seguir a a re-investir esta liquidez criando novos créditos, novas hipotecas, novas vendas aos veículos e assim o efeito de bola de neve criado. E assim sucessivamente, para o que muito contribuiu a liberalização financeira. O risco inerente à irreversibilidade dos créditos que obriga o banco a esperar pelas reembolsos repartidos ao longo do tempo e por vezes mesmo a nem sequer serem reembolsados torna-se assim uma espera inútil, por esta “liquefacção” dos créditos feita pela titularização. Além do mais o risco era difundido sobre todo o mercado e não apenas ficava com o criador do crédito e, por esta via, seria neutralizado. Acreditava-se assim nisto! A etapa seguinte, foi a etapa dos derivados de crédito. Quanto aos produtos derivados, podemos afirmar o seguinte:

É muito difícil dar uma definição geral dos produtos derivados e isto por duas razões: por um lado, antes da crise, criavam-se diariamente novos produtos cada vez mais complexos, cada vez mais difíceis de entender e por outro lado, alguns destes produtos são tão complexos que certos especialistas confessam que estes só são plenamente compreendidos por aqueles que os criaram. No entanto foram autorizados, foram comercializados. As características comuns aos produtos derivados são as seguintes:

  1. Trata-se de contratos de natureza financeira que se admitidos em bolsa podem ser comprados e vendidos, em princípio, em qualquer momento tempo.

  2. o seu valor depende (é derivado) do valor do subjacente, em que este subjacente não está a ser objecto de transacção. Sendo assim, os subjacentes dos derivados, suportes materiais dos derivados, são activos vendidos geralmente por quem os não tem e comprados por quem os não quer. No final, pagam-se e recebem-se apenas as compensações que resultam das variações do valor dos subjacentes.

  3. Consiste numa aposta, a aposta na variação do valor do subjacente e são estas variações que são os ganhos e as perdas nestes mercados.

  4. a sua liquidação intervém numa data futura.

Ilustremos ainda um tipo de derivados, a aposta sobre índices.

É possível especular sobre valores totalmente teóricos como os índices da bolsa, como os índices das matérias primas, etc. Admita-se que aposta sobre o índice Standard and Poor’s a valer por exemplo

esquerdavaimorrer - II

Admita ainda que a 11 de Novembro valia 1263,85 e que de dez para onze aumentou de 24.15.

1,263.85

Data as of Nov 11

 +24.15 / +1.95%

Today’s Change

E já agora a imagem e alguns dos números que poderão estar ligados a estes índices no plano real, imagem e números publicados pelo Banco Mundial:

esquerdavaimorrer - III

Se se admitir uma subida do índice, de qualquer deles que aqui se apresenta, compra-se um contrato imaginemos de 1.000 unidades de índice e que a variação de cada ponto ganho ou perdido vale 20 dólares. Neste caso por unidade índice ganhei 483 dólares vezes mil unidades ganhei 483.000 dólares menos os custos de transacção, por hipótese 1000 dólares. É assim esta sociedade casino sobre a qual os bancos centrais ainda pensam que detêm o seu controlo depois de todos terem alinhado na desregulação dos mercados.

(continua)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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