Uma síntese da história à volta das capitulações face aos mercados: uma introdução ao artigo de Jean-Luc Gréau,
Um texto que toma como base o muito bom livro de Robert Salais, Le viol de l’Europe, PUF, 2013.
Parte III
(CONCLUSÃO)
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Um Presidente democrata nos Estados Unidos, Jimmy Carter em 1979, um Primeiro ministro trabalhista na Inglaterra, James Callaghan em1976 e um Presidente socialista, Presidente da Republica Francesa, François Mitterrand em 1983 assinaram o acto de capitulação final. Jimmy Carter foi substituído por Ronald Reagan, James Callaghan foi substituído por Margareth Thatcher os quais puseram em prática as instituições, as regras e as políticas adequadas ao movimento da liberalização financeira. François Mitterrand, permaneceu e os seus governos encarregaram-se então desta mesma tarefa.
Paul Vocker, chamado a assumir a direcção do FED pelo Presidente Carter em 1979, lançou um programa de estabilização, depois tenta regular o Euromercado. Das três opções que tinha à sua disposição: controlar os movimentos de capitais; aplicar uma política monetária deflacionista que teria conduzido à recessão económica; introduzir a obrigação de depósitos de reservas nos bancos centrais para todas as actividades dos bancos no euromercado, colocando assim este mercado no quadro do direito comum, destas três opções ele escolheu a terceira porque o FED tinha esse poder sobre os bancos americanos. Volcker falhou. Para impor esta imposição de depósitos, teria sido necessário uma cooperação entre os bancos centrais. O Banco central da Inglaterra e da Suiça igualmente, estes recusaram; o Bundesbank que tinha a autoridade legal de imposição sobre os bancos alemães a operarem no estrangeiro, desistiu. O lobing dos banqueiros americanos junto do Congresso conseguiu impedir a aprovação desta lei Volcker sobre o controlo do Euromercado. Volcker viveu um cenário semelhante com o seu plano feito a pedido de Obama, plano este que visava voltar a uma separação entre os bancos de depósito e de investimento, que tinha sido revogada por Clinton, um Presidente democrata, e Vocker abandonou a Administração Americana.
Em tempos escrevemos uma peça sobre produtos derivados onde na introdução escrevemos:
“ É também certo que Obama tentou inflectir a política contra Wall Street, endurecendo-a, e a favor da Main Street por volta de 2009 quando reforçou os poderes do vice presidente Joe Biden, mas depois quem parece estar por estes lados agora a governar é o actual secretário de Estado do tesouro, Tim Geithner, que com aquela carinha de sacristão mais parece o Robert Rubin, dos tempos modernos, de quem se diz que é o seu protegido, talvez sem os seus milhões, mas estes também podem aparecer depois. E com esta ascensão, é Christina Romer, Presidente do Conselho dos Conselheiros de Obama que vai embora, é Peter Orszag, responsável pelo Orçamento que segue a mesma via, Lawrence Summers, Principal conselheiro económico também é substituído por Gene Sperling e a este Goldman Sachs conhece-o bem, Rahm Emanuel, chefe de gabinete de Obama, é substituído por William Daley e a este é J. P. Morgan Chase que o conhece bem e ainda Jeffrey Immelt, enorme especialista na fuga a pagar impostos, homem da General Electric, através do poderoso lobby do patronato, da Câmara do Comércio, ascende ao lugar de presidente do Conselho dos Conselheiros Económicos. Banca e Indústria em conjunto com Tim Geithner cercam assim o Presidente e este de novo afastou-se da Main Street. No espaço de três meses foi praticamente toda a equipa económica de Obama que foi substituida, até o velho Paul Volcker se foi embora também, este homem que não temia ninguém, que não devia nada a ninguém e que foi peça central no combate a Wall Street. Todos se foram embora, com excepção, claro está, de Tim Geithner.” Trata-se da reacção a uma outra capitulação, a de Obama, um homem, mais um da social-democrcaia, prisioneiro da lógica da financeirização da economia e dos mercados globais”
Até o velho Paul Volcker se foi embora, dissemos. Sobre o que restou do seu projecto de resposta à crise, escreveu Angelides o senador que dirigiu a Financial Crisis Inquiry Commission, dita também Comissão Pecora II, tomando como exemplo as apostas de cerca de uma centena de milhares de milhões no mercado financeiro de Londres feitas por JP Morgamn e pela sua “baleia de Londres” Bruno Michel Iksil:
“Pessoalmente penso que os Reguladores precisam de voltar atrás e de lápis bem afiado”
“ A intenção da Lei consistia em impedir que depositários garantidos fizessem transacções por conta própria com este perfil de risco.” Independentemente do que o JP Morgan possa dizer, “isto parece mesmo transacções por conta própria, as quais a Lei Dodd-Frank pretendia precisamente retirar do âmbito das actividades de depositários garantidos”.
Pelo lado da Inglaterra, James Callaghan foi sujeito, após dois anos já difíceis, a um ataque especulativo dos mercados financeiros internacionais contra a libra esterlina, enquanto que a situação económica da Inglaterra estava a dar sinais de melhoria. A razão de fundo era o cepticismo dos operadores contra as políticas keynesianas seguidas pelo governo de então. Um primeiro empréstimo de 5,3 milhares de milhões de dólares foi concedido à Inglaterra, principalmente pelos países do G-10. Estes foram rapidamente esgotados. O segundo empréstimo encontrou resistência pelo lado dos Estados Unidos e da Alemanha que exigiam que aceite a condição de que a Inglaterra aceitasse um plano de estabilização do FMI incluindo cortes nas despesas públicas e uma política monetária extremamente rigorosa. Uma enorme bofetada no orgulho inglês, no fundo a perspectiva grega vista 35 anos antes. O recurso a controlos cooperativos para conter a pressão especulativa esfumava-se. Era a época em que James Tobin, Prémio Nobel, propunha a sua já famosa taxa sobre as transacções financeiras instantâneas sobre os mercados de capitais. Como ele o disse um pouco mais tarde, a proposição caiu como uma pedra a cair num poço muito fundo, ou, como diríamos em Portugal, caiu em saco roto. Sem financiamento nem controlos cooperativos o governo trabalhista tinha perante si uma escolha difícil: seja, adoptava a “outra estratégia económica” como foi chamada, que tinha a preferência do Partido Trabalhista, e que consistia em impor um controlo rigoroso sobre os câmbios, ou então passava sob as forças caudinas do FMI. Callaghan optou não pela “outra política” a que não era do mainstream, optou pela política de austeridade imposta pelo FMI. Determinou-se ali e com esta opção o fim da sociedade dita keynesiana na Inglaterra, fundada sobre o pleno-emprego e sobre o Estado Social. E sublinha Helleiner, tratou-se de um ponto de viragem nas relações financeiras entre os países. Se a Grâ-Bretanha, que desempenhava um papel motor na promoção de uma ordem financeira liberal e no projecto europeu tivesse escolhido introduzir os controlos cambiais severos, o processo de globalização teria sofrido um sério revés. Segundo os testemunhos, a Administração Americana disso estava completamente consciente.
E François Mitterrand teria podido agir de forma diferente em 1983 quando a França foi submetida ao mesmo dilema. A vitória da União da esquerda em Maio de 1981 foi seguida de vagas especulativas contra o franco. Apesar de uma alta drástica das taxas de juro, uma desvalorização em Outubro (relativamente ao marco alemão) no seio do sistema monetário europeu e finalmente um relançamento keynesiano muito modesto da economia, a especulação retomou em Outubro de 1982. Tornou-se claro que nem os parceiros europeus, nem os Estados Unidos aceitariam uma nova desvalorização sem um programa de austeridade. Segundo um esquema idêntico ao observado na Grã-Bretanha, o governo dividiu-se entre partidários da austeridade (Delors, Pierre Mauroy, Michel Rocard) e partidários da “outra política” (Pierre Beregovoy, Jean-Pierre Chévènement, Laurent Fabius) que consistia, como se disse, em abandonar o sistema monetário europeu e aumentar o controlo dos câmbios e das trocas comerciais. Mitterrand procurou em vão um compromisso fundado sobre a aplicação e ao nível europeu dos controlos sobre os movimentos de capitais para desligar as taxas de juro da Europa das taxas praticadas nos Estados Unidos, bloqueando por essa via as arbitragens e as especulações sobre taxas de juro e de câmbio. A Grã‑Bretanha de Margaret Thatcher opôs-se e a Alemanha de Helmut Kohl que tinha acabado de ser eleito temia ser arrastado num plano de resgate da economia francesa. Mitterrand prometeu a austeridade contra uma nova desvalorização.[1] A capitulação de Mitterrand é a austeridade que se seguiu, é a disciplina monetária aplicada, é a liberalização financeira, são as privatizações também. Desde 1984, Laurent Fabius, Primeiro‑ministro de França, desenvolve um programa de desregulação das instituições e dos mercados financeiros. Esta política foi depois seguida por Pierre Beregovoy[2] a partir de 1986. Jean-Claude Trichet futuro governador do BCE, de 2003 a 2011, foi um artesão activo destas políticas, como director do Tesouro, de 1987 a 1993, depois como governador do Banco de França até 2003. A França, sob a égide de Mitterrand, tornou-se um advogado importante da corrente neoliberal da Europa, o que favoreceu a conversão ao neoliberalismo de uma grande parte dos intelectuais e dos homens políticos do centro-esquerda da Europa[3]. A consequência deste processo está bem à vista não só na crise de hoje como nas respostas que contra esta crise estão a ser aplicadas e bem sintetizadas na visão de Manuel Valls de que a Esquerda pode morrer, e na prática de Manuel Valls de aprofundar as políticas de austeridade que a esquerda podem matar!
É pois no contexto que acabamos de descrever que deve ser entendido o texto de Jean-Luc Gréau que nesta série vamos editar.
Coimbra, 11.10.2014
Júlio Marques Mota
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[1] Os tempos mudam mas as consequências são as mesmas quando se trata de cedências à lógica da financeirização da economia. Renzi a troco de uns bónus na austeridade, umas décimas a mais no objectivo programado do défice italiano para poder “dar” cerca de 80 euros por mês aos trabalhadores mais mal pagos , ofereceu a Alemanha de Frau Merkel uma muito maior precariedade nos mercados de trabalho da Itália, com o argumento agora de que a precariedade pode ser expansiva, pode gerar crescimento! Mas com Renzi não se pode falar em capitulação. Era conferir-lhe uma dignidade que não tem.
[2] Beregovoy suicidou-se na sua terra natal num dia 1º de Maio e na margem esquerda do rio da sua terra. Terá sido uma forma, brutalmente trágica, de pedir desculpa à enorme massa de trabalhadores pela política seguida, foi uma interpretação dada para este terrível acntecimento. Estávamos a 1 de Maio., sublinhe-se.
[3] Neste esquema e neste modelo insere-se também o socialista José Sócrates e a sua política de privatizações, quando ainda não se falava de crise.
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