MITO & REALIDADE – Terror e morte em Lisboa – 3 – por José Brandão
carlosloures
Mas não era só na Rotunda que os revoltosos de 19 de outubro de 1921 desenvolviam a sua ação ofensiva.
Ainda antes de terem soado os canhões que marcavam o início da 25.ª revolta que, desde 5 de Outubro de 1910, acordava Lisboa ao som da bombarda, já os grupos revolucionários civis tinham ocupado o Governo Civil de Lisboa e aprisionado o diretor da Polícia de Segurança do Estado.
Com presença obrigatória em praticamente tudo o que era golpe ou revolução desde os princípios da República, lá estavam uma vez mais na primeira linha os homens do grupo civil de Manuel Inácio Ferraz, verdadeiros revolucionários profissionais e grandes especialistas em matéria de ações de rua.
GRUPO DE REVOLUCIONÁRIOS CIVIS DE MANUEL INÁCIO FERRAZ (AO CENTRO NA FOTO) APOIANTE DA REVOLTA DE DIA 19.
Logo ao romper do dia, as duas principais forças da revolta controlavam toda a situação. A Guarda Nacional Republicana concentrava-se na Rotunda, exibindo o seu espetacular potencial de fogo. Os marinheiros sublevados ocupavam o Arsenal, contando com o apoio dos mais poderosos vasos de guerra concentrados no estuário do Tejo. Entretanto, os núcleos de civis armados percorriam a cidade em patrulhamentos de vigilância e propaganda a favor do golpe. Quase todos os edifícios públicos, os centros de comunicações e os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos revoltosos.
O Governo não sabe como responder e muito menos como passar ao contra-ataque em termos militares.
António Granjo irá permanecer pouco tempo em casa do seu ministro das Finanças. Por volta das nove horas recebe o ajudante do comandante da GNR. O representante do general Abel Hipólito vem comunicar que grande parte da Guarda Nacional Republicana está do lado dos sublevados e outra se encontra numa atitude de dúvida que, no entanto, se concretiza nas palavras ditas pelos seus oficiais aos jornalistas: «A Guarda não está disposta a bater-se entre si, e considera, pela força das circunstâncias, o movimento revolucionário triunfante, pelo menos em Lisboa.» Ao que parece, apenas o esquadrão de Telheiras não tinha obedecido à ordem de avançar para a Rotunda.
Conhecedor desta situação, e impossibilitado já de comunicar com o exterior, devido ao corte das linhas telefónicas, o chefe do Governo parte para o Quartel do Carmo, onde espera estabelecer alguns contactos com as chefias militares.
No quartel-general da GNR, no Carmo, António Granjo encontra um ambiente totalmente adverso. Encerrado nas salas de comando e vigiado como se fosse um vulgar cativo, tenta vários telefonemas, mas chega à conclusão que não pode contar com qualquer apoio que lhe garanta uma resposta eficaz ao golpe que tinha precisamente na Guarda o seu mais forte bastião.
As forças revoltosas montavam barricadas nos locais já habituais nestas circunstâncias. Tudo o que viesse à mão servia para levantar ou improvisar uma barreira defensiva. Na Rua de Serpa Pinto, junto ao Governo Civil, ocupado logo às primeiras horas da madrugada, a barricada era feita com mesas de jogo que ultimamente haviam sido apreendidas em vários clubes. Na Rua Ivens e na Rua Victor Córdon estavam também montadas algumas barricadas destinadas à defesa do Governo Civil, em poder dos insurretos.
Para António Granjo a situação estava irremediavelmente perdida. Neste dia 19 de outubro de 1921 nem sequer pôde reunir o seu Governo. Às seis da manhã ainda o tenta fazer, mas verifica que tem a seu lado apenas dois ministros: o das Finanças e o das Colónias. Na véspera já não conseguira reunir a Comissão da Ordem Pública, que o Governo constituíra para casos desta natureza. Tanto o ministro da Guerra como o ministro da Marinha encontravam-se fora de Lisboa numa altura em que quase todo o mundo sabia estar iminente mais um golpe militar. Dos nove ministros que formavam o Governo de António Granjo, somente dois davam sinais de vida nesta hora decisiva.
«A verdade, a cruel verdade, surge-lhe, inteirinha, ante os olhos. Estava abandonado, totalmente abandonado. Não o prenderam, então, porque lhes não apeteceu. Teria sido melhor. Todos se afastavam da sua pessoa. Por covardia ou traição.» – Consiglieri Sá Pereira, A Noite Sangrenta, Lisboa, 1924, p. 106.
Às dez da manhã envia ao chefe do Estado o seu pedido de demissão:
«Exmo. Senhor Presidente da República
Lisboa, 19 de outubro de 1921, às 10 horas
Escrevo a V. Ex.ª do Quartel do Carmo e espero que esta carta chegará às mãos de V. Ex.ª antes das 11 horas, com a resposta que prometi.
Não pude ir falar com o tenente-coronel Sr. Chaves, chefe do Gabinete de S. Ex.ª o ministro da Guerra, que foi a Alter do Chão fazer uma prometida visita à Coudelaria Nacional, não tendo podido ainda chegar a Lisboa.
Conferenciei com SS. Ex.ª o general comandante da Guarda Republicana e o seu chefe do Estado-Maior, os quais me informaram que, de toda a Guarda Republicana, consideravam apenas fiéis ao Governo duas ou três companhias de infantaria, com uma secção de metralhadoras, absolutamente insuficientes para oferecerem qualquer resistência às tropas revoltosas.
Nestes termos, o Governo encontra-se sem meios de resistência e defesa em Lisboa.
Não sei da situação do Campo Entrincheirado, das tropas da Divisão e das tropas concentradas em Mafra. Mas informa-me o mesmo chefe do Estado-Maior da Guarda, Ex.mo Sr. Coronel Ferreira Martins, que os efetivos destas tropas são insuficientes para atacar as tropas revoltosas, que são a quase totalidade da Guarda, e, como é provável, da Marinha.
Deponho, por isso, nas mãos de V. Ex.ª a sorte do Governo, confiando no alto critério que sempre impôs V. Ex.ª à consideração do País, o melhor caminho a seguir.
Sabe V. Ex.ª que jamais faltei ao cumprimento dos meus deveres para com a República e a Nação, e é cumprindo, ainda desta vez, dolorosamente o meu dever que escrevo a V. Ex.ª
Continuo no Quartel do Carmo e fico com cópia desta, para esclarecimento da Nação.
O Presidente do Ministério
(a) António Joaquim Granjo»
A resposta do presidente da República não se fez esperar. Ainda no Quartel do Carmo, António Granjo toma conhecimento da mesma:
«Exmo. Senhor Presidente do Ministério
Entendo que V. Ex.ª procedeu nobremente, escrevendo a carta que acaba de me enviar do Quartel do Carmo.
E eu julgo cumprir honradamente o meu dever de português, e de republicano, declarando a V. Ex.ª que, desde este momento considero finda a missão do seu Governo.
A tantas infelicidades que têm caído sobre este país, que cada vez, se possível é, amo mais, não se juntara a desgraça, que esteve iminente, de ser derramado, numa luta fratricida, o sangue dos seus generosos filhos.
Com os protestos da minha consideração, desejo a V. Ex.ª
– Saúde e Fraternidade – Lisboa, 19 de outubro de 1921.
(a) António José de Almeida»
Mal recebeu a resposta do chefe do Estado, desligando-o das suas obrigações políticas, António Granjo, ainda no Quartel do Carmo, faz seguir para a Amadora um radiograma destinado ao ministro da Guerra:
«Ministro da Guerra – Amadora
Tendo respondido S. Ex.ª presidente da República que Governo só dispunha sua defesa em Lisboa duas companhias Guarda e uma secção metralhadoras e eu desconhecia a situação restantes tropas e que, por isso, depunha nas suas mãos sorte do Governo, resolvendo S. Ex.ª como entendesse situação política, acabo de receber carta dando por finda missão Gabinete.
(a) Presidente Ministério»
Cumpridas as formalidades protocolares, António Granjo recolhe tranquilamente a sua casa, convicto de ter tomado a decisão que melhor serviria para evitar o agravamento do conflito em curso, desde as primeiras horas deste dia 19 de outubro de 1921.