MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 23 – por José Brandão

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JOSÉ RELVAS, NA VARANDA DA CÂMARA DE LISBOA

Com o Governo Provisório anunciado do alto da mais solene varanda destinada as aclamações alfacinhas começara oficialmente a República e, simultaneamente, uma nova luta para aquele que era, afinal, o maior responsável por essa possibilidade do 5 de Outubro de 1910.

 «Aquilo» que era apresentado como Governo não correspondia com o que tinha ficado assente nas reuniões preparatórias da Revolução.

Ao que indica António Maria da Silva, durante essas reuniões alguns homens do Diretório do PRP iam combinando uma coisa e ao mesmo tempo tramando outra totalmente diferente. Afonso Costa foi um dos que mais se empenhou nessas trocas e baldrocas entre irmãos e primos. Pelo menos é essa a acusação que lhe é feita por António Maria da Silva nas memórias que redige passados vários anos. Segundo este importante dirigente maçónico e carbonário, – que mais tarde substitui Afonso Costa na chefia do Partido Democrático – enquanto os dirigentes do Diretório reuniam na Casa dos Banhos de S. Paulo junto ao Mercado da Ribeira à espera de ouvir os tiros do sinal para o arranque da revolução, Afonso Costa bichanava os ouvidos de António José de Almeida a fim de o convencer sobre algumas mudanças de pastas, contrariando o que se tinha estabelecido em anteriores reuniões dos órgãos de cúpula do movimento revolucionário. Discutiam-se nomes e trocavam-se pastas; eliminavam-se candidatos já aprovados e propunham-se novos, chegando a ser indicado para comandante da 1.ª Divisão Militar o general António Carvalhal Teles de Carvalho, que, apesar de constar como simpatizante republicano, iria nesse mesmo dia 4, à tarde, comandar a grande tentativa de ataque das forças monárquicas contra o reduto revolucionário da Rotunda a partir de Sete Rios.

Mas não foram só as «alterações revolucionárias» de última hora que causaram mau estar entre alguns dos presentes nessa reunião na Casa dos Banhos. A chegada espalhafatosa do automóvel que transportara Afonso Costa e o grupo que o acompanhava provocara logo um certo incómodo e até alguma desconfiança entre os que já se encontravam no local que tinha sido escolhido para quartel-general do movimento revolucionário, àquela hora preste a eclodir.

Machado Santos levará o resto da vida – até ser assassinado em 19 de outubro de 1921 – num constante e permanente estado de revolta indignado com a «traição» dos grandes caudilhos do Partido Republicano que planearam o «golpe do Governo Provisório» enquanto ele e meia dúzia de audazes se batiam na Rotunda.

«Com que direito se modificou nas termas de S. Paulo o que ficara assente pelos organismos a quem tal cabia?» – Interroga-se e protesta António Maria da Silva nas memórias que escreverá quarenta anos depois.

Os homens que haviam sido promovidos a Governo Provisório da República, uma inacreditável coleção de mediocridades glorificadas, representavam várias tendências dentro do PRP, tinham opiniões diferentes sobre o que devia ser o novo regime e nem sequer especialmente se estimavam. O Governo Provisório não era um Ministério no sentido usual da palavra, isto é…, não era formado por um grupo de pessoas com ideias comuns ou, pelo menos, um programa comum. O presidente, o filósofo, historiador, crítico e sociólogo Teófilo Braga, «não passava de uma nulidade política, ali posta com propósitos puramente decorativos.»

Com pouco mais de meia dúzia de semanas a República era já vista como uma causa perdida e para estar por dias.

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