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NESTE DIA… Em 27 de Outubro de 1914, nasceu DYLAN THOMAS

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Dylan Thomas nasceu há cem nos, no dia 27 de Outubro de 1914. Foi um dos maiores poetas de língua inglesa. Vamos comemorar o seu centenário publicando de novo o belo ensaio que, sobre ele, escreveu Rachel Gutiérrez. Devido à sua extensão, vamos dividi-lo em três partes.

Foi um dos grandes, não há dúvida sobre isso.

Ele bebeu o próprio sangue e comeu a própria medula

para chegar a essa substância.

Seus poemas não precisam de palavras,

muito menos das minhas, para defendê-los ou explicá-los.

Theodore Roethke1

Amanhece no pequeno porto carvoeiro. A rua principal de Swansea já despertou: imóvel numa esquina, um homem está fumando; também imóvel diante de uma porta aberta, uma mulher contempla a manhã. Soa, estridente, o sino de uma escola…

mas o menino Dylan ainda não irá desta vez. Sofre de asma e Florence, sua mãe, quer resguardá-lo da umidade. Aos sete anos começará a freqüentar a casa que a Sra. Hole transformou em colégio particular, onde rebeldia e diabruras lhe serão perdoadas por conta de sua precocidade, dos cabelos cacheados e dourados e das feições angelicais, apesar daqueles imensos olhos bravios. Anos mais tarde, Kay Boyle, uma contista norte-americana, irá observar que atrás do impacto selvagem daqueles olhos se escondia uma estranha qualidade de ternura.

Esse anjo rebelde, conhecido como o Rimbaud do país de Gales, vai viver apenas três anos além dos que Mozart viveu para criar uma das mais originais obras poéticas do século XX.

O país de Gales é formado por montanhas rochosas e profundos vales pontilhados de lagos. O solo é mais seco e árido nessa região, a flora é bem mais pobre, mas em alguns de seus recantos remotos sobrevivem espécies de mamíferos e de pássaros há muito desaparecidos da Grã-Bretanha. E acredita-se que seus habitantes são descendentes diretos de homens das cavernas. Ao norte, encontra-se o pico mais alto da Inglaterra: Snowdown; ao sul, numa península carbonífera, onde “a treva é um longo caminho”, Swansea que em gaélico é Abertawe, à margem do rio Tawe.

O Welsh, ou gaélico de Gales, é aparentado com o bretão e os outros dois gaélicos – o escocês e o irlandês – porém preserva, como as demais línguas celtas, a originalidade.

Em toda a longa vida cultural de Gales, os bardos, os poetas, desempenharam um papel importantíssimo. Já nos séculos XI e XII registram-se festivais de poesia e música, os einsteddfod, e Merlin, o Myrddín galês, é o mais mítico dos antigos bardos, pois nele o poeta se confunde com o mago. Nesse país de duendes e de fadas, de magos e de poetas, não é de admirar que um mestre-escola, versado tanto em gaélico quanto em inglês, quisesse dar ao seu único filho homem o nome de um herói do romanceiro medieval galês, o Mabinogion. Dylan é o filho de uma virgem. Conta a lenda que Math, filho de Mathonwy, desafiou a virgem Aranrhod a subir em sua vara de condão e, ao cair na armadilha, ela deu à luz um menino de cabelos cacheados e dourados, um filho das ondas que foi logo embora para o mar, seu elemento natural.

Dylan Marlais Thomas nasceu perto do mar, no nº 5 da Cwmdonkin Drive sobre uma colina das Uplands, em Swansea, no dia 27 de outubro de 1914. Marlais, do rio do mesmo nome, é o título de bardo de um tio-avô do poeta.

Protegido e mimado pela mãe e pela irmã Nancy, sete anos mais velha do que ele, Dylan foi muito cedo estimulado pelo pai, cujas leituras de Shakespeare acostumou-se a ouvir desde os quatro anos, e cuja vasta biblioteca foi-lhe sempre franqueada. Menino fraco, com ossos quebradiços, doenças pulmonares e de fígado, não se sabe justamente em que medida uma saúde tão precária favoreceu sua intimidade com as palavras.

Quando ouve estórias e cantigas, nursery rhymes, o pequeno Dylan não se interessa com o que acontece aos personagens, só se importa com as palavras. Palavras que lembram sons: o do chocalho do carro do leiteiro, o dos cascos de um cavalo sobre as pedras, ou quando um galho bate na vidraça. Palavras, sim, têm vida própria; são engraçadas, assustadoras: ora trovejam e amedrontam, ou fazem cócegas, provocam riso; umas velozes, outras pesadas, umas que dançam, outras que pulam. Há as retumbantes e as sussurrantes: imitam sinos, as ondas do mar, o som do vento e o murmúrio da chuva. Elas têm cores, elas têm formas. As palavras são mágicas.

No começo eu quis escrever poesia porque me apaixonei pelas palavras.

Enamorado delas, o menino busca rimas e assonâncias nas palavras antes mesmo de poder lê-las ou escrevê-las. Contudo, não será um bom aluno. Desde a escola da Sra. Hole, só o que realmente lhe interessa é a língua inglesa, e jamais vai receber, como Rimbaud, nove prêmios de uma vez. Com apenas dez anos, porém, já então na Grammar School, onde seu pai é o venerado professor de literatura, seus poemas começam a fazer sucesso. Mas nem a presença do pai consegue retê-lo por muito tempo nos estudos que abandona, para sempre, aos dezesseis.

A infância, fonte inesgotável de sonhos e de poesia, se alonga em Dylan Thomas. As paisagens de Gales povoam seus contos e seus poemas. Fernhill, o sítio da tia Ann, ora aparece como Gorsehill, como em “Os pêssegos”, ora como Fern Hill, como no belo poema “Colina das samambaias”, cujo título em inglês, assim separado – Fern… hill – produz ressonâncias da língua alemã (fern: longe), a colina distante, distante no espaço, distante no tempo. E a figura proustiana da tia Ann toma proporções aterradoras no impressionante poema “Depois do funeral”.

Her fist of a face died clenched on a round pain;

An sculptured Ann is seventy years of stone.

E que, ao morrer, o punho de seu rosto se contraiu numa dor

redonda;

Eis Ann esculpida, setenta anos de pedra.

A infância é também o espaço dos horrores. Há séculos, Gales é habitado por fantasmas. Atormentado por terrores noturnos, o menino, depois o rapaz e até o homem, muitas vezes só conseguirá dormir de manhã. O que o salva é a leitura. Lê tudo o que lhe cai nas mãos e principalmente, é claro, os poetas, esses magos. É guiado por um verso de John Donne: “Vai e agarra uma estrela cadente”!

É extraordinário o conhecimento que Dylan Thomas já possui, aos quinze anos, da moderna poesia de seu tempo. Num artigo escrito em 1929, para a revista da Swansea Grammar School, ele revela sua intimidade com quase toda a criação poética européia até aquele período. O artigo não é o de um rapaz, mas de um crítico lúcido e seguro de suas opiniões. Já é trabalho de um profissional. E nisso consiste, especificamente, o prodígio de Dylan Thomas. Por mais que a vida tenha corrido desregrada e turbulenta, por mais que, trágica e profundamente, mais tarde as marcas do alcoolismo o tenham deformado, Dylan sempre foi apaixonado por seu métier, um estudioso, um artesão obstinado, um artista extremamente severo em seu ofício.

In my craft or sullen art

Exercised in the still night

Em meu ofício ou arte taciturna

Exercido na noite silenciosa

Ele mesmo declarou que gostava de tratar as palavras como um artesão faz com a madeira ou com a pedra: moldando, burilando, esculpindo, polindo, aplainando, e assim expressar algum impulso lírico, alguma dúvida ou convicção espiritual, alguma verdade vaga e obscuramente compreendida. Mas o sentido vinha em segundo lugar. Desde o primeiro deslumbramento infantil, o seu mundo era o das palavras se organizando em poesia. Para dominá-las, copiava outros poetas, imitava, estudava, treinava. Cada palavra devia viver para sempre em seu próprio deleite e glória, em sua obscuridade ou em sua luz. Picasso disse certa vez que a primeira pincelada era dele, mas a segunda já era do quadro. Em Dylan, a segunda palavra já era do poema.

Em termos de originalidade, o ambiente literário e artístico de Swansea foi especialmente propício à formação do jovem poeta. Ele é o caçula de uma geração rica de artistas, da qual citam-se os pintores, que são muitos: Walters, Richards, Janes, Stanley Spencer e David Jones; Daniel Jones é o músico; Harry Secombe destaca-se no teatro; Wynford Vaughan Thomas é um radialista que escreve boa prosa; e na poesia Vernon Watkins, o amigo da vida toda, e o próprio Dylan. Longe de Londres o bastante para não se deixarem influenciar pelos modismos da grande cidade, mas perto o suficiente para ouvir os ecos das importantes inovações artísti cas, esses jovens intelectuais, como disse Constantine Fitzgibbon, o biógrafo e amigo do poeta, permaneceram protegidos para explorar a própria imaginação e o próprio talento.

Se quisermos depreender uma visão-de-mundo do poeta antes da primeira viagem a Londres, diremos que na boa tradição celta ele é um panteísta que se identifica com “a força que impele a flor” e com “a força que impele a água através das rochas”.

And I am dumb to mouth unto my veins

How at the mountain spring the same mouth sucks.

E perco a voz para dizer às minhas veias

Como a mesma boca suga as fontes da montanha.

Voz musical que nem mesmo em outra língua tão distante, como a portuguesa, perde a sonoridade. E é interessante lembrar que em certa ocasião, escutando a Oitava Sinfonia de Beeethoven com Fitzgibbon, Dylan confessou que podia compreender todas as formas de expressão artística exceto a música, porque não entendia que alguém pudesse guardar tantos sons e tantas formas na cabeça ao mesmo tempo. No começo e sempre para ele, a música era o Verbo, o som do Verbo. Sua identificação com a natureza só se realiza mediatizada pelas palavras, as sagradas palavras-forma, palavras-som. Assim, deitado sobre a relva, fundido com a terra e com os insetos, com flores e frutos integrado, despede-se da adolescência enquanto espera o temporal.

I with the wooden insect in the tree of nettles,

In the glass bed of grapes with snail and flower,

Hearing the weather fall.

Eu, com o inseto de madeira nos pés de urtiga,

No leito de vidro das uvas com a flor e o caracol,

Ouço cair os temporais.

Enquanto a chuva não chega, porém, como alguém que em rilkeana despedida voltasse o olhar, mais uma vez, do alto da colina para o vale que está abandonando, precisamos rever, com Fitzgibbon, os múltiplos significados dessa terra para Dylan Thomas. Afinal, foi na pequena Swansea que o poeta passou mais da metade de sua vida, os primeiros vinte anos. Uma fronteira em três sentidos: geograficamente porque é um porto de mar, onde o mar limita e expande a terra ao mesmo tempo; cultural e lingüisticamente, onde a Inglaterra encontra Gales, a língua inglesa encontra o Welsh. Por isso Dylan falava no “mar de duas línguas”. Em terceiro lugar, porque são muito diferentes os habitantes das fazendas solitárias dos que povoam os vales de carvão, com vida própria e vibrante. Sem esquecermos que nas duas culturas confrontam-se o espírito cristão e o paganismo celta. Por tudo isso, Dylan dizia que todas as divisões passavam por seu próprio corpo.4

Ele é um dilacerado: é acima de tudo um galês, mas é um poeta inglês que nem sequer fala o gaélico; é um homem da cidade, mas seu instinto, sua imaginação e sua inspiração são campestres; não sabe nadar, mas jamais saberá viver longe do mar; detesta os nacionalismos, essas limitações beligerantes e perigosas, mas Gales é, de forma incontestável, o seu lar, onde estão os amigos de verdade. É um poeta difícil mas, como diz G. S. Fraser, um de seus primeiros críticos, há uma força emocional em seus poemas de tal magnitude que é possível ser tocado por eles sem compreendê-los completamente. Com isso concorda Elder Olson, conhecido scholar da Universidade de Chicago, também pioneiro no reconhecimento do gênio do galês. E ele disse:

O extraordinário da poesia de Thomas é que ela produzia seu efeito mesmo antes de ter sido compreendida. O mais mínimo efeito, além disso, deixava o leitor com a impressão de que um poeta com um extraordinário senso da língua e do ritmo estava dizendo algo importante sobre temas de importância; na pior das hipóteses, ele se tornava convincente pela violência e pela obscuridade.5

Segundo Fraser e Olson, o Dylan Thomas que chega a Londres em 1934, é um galês típico: alia a uma atitude religiosa diante da vida, uma rebeldia desafiadora em face dos valores burgueses e de seus representantes da classe média. É irreverente no modo de falar, usa um vocabulário exagerado mas na verdade não passa de um ingênuo, totalmente desprovido de malícia. Destemido para algumas coisas, tem, no entanto, um medo infantil de vampiros e de duendes, pois eles sempre podem aparecer à noite. No ano anterior, visitara a cidade durante alguns dias mas, por insegurança, não se afastaria muito dos arredores da estação ferroviária, de onde poderia voltar para Gales a qualquer momento. Agora, com recém-completos vinte anos, tem intenções de permanecer mais tempo. Sua bagagem de poeta já é respeitável: todos os versos de Eighteen Poems, muitos dos que vão parecer em Twenty-five Poems e esboços de vários outros que serão publicados bem mais tarde. Como criador, já sabe o que quer; sua poesia está chegando ao ápice da forma e do estilo. Contudo, embora orgulhoso de suas origens e confiante em seu próprio talento, ressente-se por ser da província e por não ter tido uma formação universitária, como a maioria dos intelectuais da capital. E porque é vulnerável demais, sensível demais, precisa de uma couraça, uma persona atrás da qual possa se sentir defendido, seguro. Passa então a representar o papel de poeta maldito, marginal, desregrado e beberrão e, como diria Fernando Pessoa, “quando quis tirar a máscara, estava colada à cara”.

(Continua)

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