DYLAN THOMAS – 1- por Rachel Gutiérrez

Prosseguindo a publicação de textos introdutórios a um debate centrado na poesia, na sua origem, no papel que deve ter na sociedade, iniciamos a publicação de um ensaio de Rachel Gutiérrez sobre a figura e a obra de Dylan Thomas.

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Foi um dos grandes, não há dúvida sobre isso.

Ele bebeu o próprio sangue e comeu a própria medula

para chegar a essa substância.

Seus poemas não precisam de palavras,

muito menos das minhas, para defendê-los ou explicá-los.

Theodore Roethke1

Amanhece no pequeno porto carvoeiro. A rua principal de Swansea já despertou: imóvel numa esquina, um homem está fumando; também imóvel diante de uma porta aberta, uma mulher contempla a manhã. Soa, estridente, o sino de uma escola…

mas o menino Dylan ainda não irá desta vez. Sofre de asma e Florence, sua mãe, quer resguardá-lo da umidade. Aos sete anos começará a freqüentar a casa que a Sra. Hole transformou em colégio particular, onde rebeldia e diabruras lhe serão perdoadas por conta de sua precocidade, dos cabelos cacheados e dourados e das feições angelicais, apesar daqueles imensos olhos bravios. Anos mais tarde, Kay Boyle, uma contista norte-americana, irá observar que atrás do impacto selvagem daqueles olhos se escondia uma estranha qualidade de ternura.

Esse anjo rebelde, conhecido como o Rimbaud do país de Gales, vai viver apenas três anos além dos que Mozart viveu para criar uma das mais originais obras poéticas do século XX.

O país de Gales é formado por montanhas rochosas e profundos vales pontilhados de lagos. O solo é mais seco e árido nessa região, a flora é bem mais pobre, mas em alguns de seus recantos remotos sobrevivem espécies de mamíferos e de pássaros há muito desaparecidos da Grã-Bretanha. E acredita-se que seus habitantes são descendentes diretos de homens das cavernas. Ao norte, encontra-se o pico mais alto da Inglaterra: Snowdown; ao sul, numa península carbonífera, onde “a treva é um longo caminho”, Swansea que em gaélico é Abertawe, à margem do rio Tawe.

O Welsh, ou gaélico de Gales, é aparentado com o bretão e os outros dois gaélicos – o escocês e o irlandês – porém preserva, como as demais línguas celtas, a originalidade.

Em toda a longa vida cultural de Gales, os bardos, os poetas, desempenharam um papel importantíssimo. Já nos séculos XI e XII registram-se festivais de poesia e música, os einsteddfod, e Merlin, o Myrddín galês, é o mais mítico dos antigos bardos, pois nele o poeta se confunde com o mago. Nesse país de duendes e de fadas, de magos e de poetas, não é de admirar que um mestre-escola, versado tanto em gaélico quanto em inglês, quisesse dar ao seu único filho homem o nome de um herói do romanceiro medieval galês, o Mabinogion. Dylan é o filho de uma virgem. Conta a lenda que Math, filho de Mathonwy, desafiou a virgem Aranrhod a subir em sua vara de condão e, ao cair na armadilha, ela deu à luz um menino de cabelos cacheados e dourados, um filho das ondas que foi logo embora para o mar, seu elemento natural.

Dylan Marlais Thomas nasceu perto do mar, no nº 5 da Cwmdonkin Drive sobre uma colina das Uplands, em Swansea, no dia 27 de outubro de 1914. Marlais, do rio do mesmo nome, é o título de bardo de um tio-avô do poeta.

Protegido e mimado pela mãe e pela irmã Nancy, sete anos mais velha do que ele, Dylan foi muito cedo estimulado pelo pai, cujas leituras de Shakespeare acostumou-se a ouvir desde os quatro anos, e cuja vasta biblioteca foi-lhe sempre franqueada. Menino fraco, com ossos quebradiços, doenças pulmonares e de fígado, não se sabe justamente em que medida uma saúde tão precária favoreceu sua intimidade com as palavras.

Quando ouve estórias e cantigas, nursery rhymes, o pequeno Dylan não se interessa com o que acontece aos personagens, só se importa com as palavras. Palavras que lembram sons: o do chocalho do carro do leiteiro, o dos cascos de um cavalo sobre as pedras, ou quando um galho bate na vidraça. Palavras, sim, têm vida própria; são engraçadas, assustadoras: ora trovejam e amedrontam, ou fazem cócegas, provocam riso; umas velozes, outras pesadas, umas que dançam, outras que pulam. Há as retumbantes e as sussurrantes: imitam sinos, as ondas do mar, o som do vento e o murmúrio da chuva. Elas têm cores, elas têm formas. As palavras são mágicas.

(Continua)

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